terça-feira, novembro 03, 2026

 Se apaixonar é teu seu coração sequestrado?


Coloquei José Aragão pra tocar, “Minta pra mim pra que eu sinta um sonho feliz assim”, ele disse. Ai pensei “Quem bom que não estou apaixonada, não estou com o coração sequestrado por ninguém”. Mas depois pensei direitinho, meu coração é um pouco sequestrado sim, por várias pessoas que sou apaixonada. Mas acho que sequestro, talvez não seja uma boa palavra pra definir isso que se sente quando se está apaixonado. Também associam muito paixão a roubo: “roubaram meu coração”. Quando se rouba, se subtrai. Será isso mesmo que acontece com a gente quando estamos apaixonados? Acho que sinto mais como fusão, apaixonar-se é fundir-se um pouco com o outro, não fundir-se totalmente e tornar-se indiscernível. Ou talvez sim, isso mesmo, tornar-se indiscernível, ter uma fusão do ego no todo. Mas não a partir de um só sujeito. Acho que essa é a grande falácia do amor: entender que devemos nos fundir apenas com uma pessoa. E sim, compreender que a fusão com aquela pessoa, nos leva a fusão total, à sensação da fusão total, perdemos a noção de eu. Mas não é exatamente isso que acontece no transe extático? Uma fusão  com o todo. Talvez, quem nunca experimentou um transe extático, realmente não tem a dimensão do que isso provoca na gente. Porque é uma lembrança da nossa conexão com o todo, é gozar apenas um momento o prazer de toda uma eternidade. 


Acho que a meditação ajuda a aprender sobre o funcionamento do nosso corpo-energia, é autocompreensão, é ferramenta terapêutica, mas também é ferramenta de liberação. Mas você não entra em transe extático a partir dessa metodologia. É um outro caminho. 


Já as práticas ritualísticas envolvem o transe extático. É um caminho mais avassalador, rápido e intenso. Aprender na dor, sentindo as feridas. Sentindo demais, se abrindo para sentir. Não fugir do sentir. Tem vários modos de fugir do sentir, anestesiando-se. São mecanismos de autodefesa. Nosso ego gera mecanismos de autodefesa para se preservar, preservar a sua existência. É preciso aprofundar-se nesse sentido de caminho espiritual, onde o corpo se põe para sentir, sentir o mundo tocar você por inteiro. Porque quando você se abre para o sentir é doloroso, mas veloz.


Na velocidade de um tigre a gente caminha, lento, vagaroso e com golpes rápidos. Ele se esgueira em torno de você e abocanha quando você menos espera. Um tigre sabe caminhar sem ser percebido. Mas ele abocanha, sim, senhor, quando ele quer, ele abocanha.


E uma onça? Ela chega silenciosa, mas tudo ela enxerga. Ela sabe o que quer e como conseguir. Mas ela sabe que é pelo jogo que as coisas se dão. No jogo das palavras. As palavras cambaleantes são aquelas que melhor falam, mais se comunicam. Porque caminham direto pro coração, sem passar pelo cérebro. 


A poesia é palavra cambaleante, trôpega. Ela anda errante pelos textos. Ela cai, tropeça e volta a levantar num passo de samba.


Vocês sabem que anda num andar cambaleante, de um molejo, você se apaixona. É arriscado apaixonar-se por eles? Sim, é arriscado para a sua identidade, para a manutenção do seu ego.


Mas não podemos ver a paixão como queda num abismo. Acho que podemos pensar em paixões, formas de vivenciar a paixão, que variam. Você tem bagagem suficiente para saber que não significa a sua morte? mas apenas a morte de um ego? Qual a sua reação diante de uma experiência desestruturadora? Você reage se machucando? Machucando os outros? Caindo em ilusões?


Eu sinto como se tivesse caído em armadilhas. Mas eu me deixei cair nelas, talvez por não ter tido estrutura para suportar a dor. Para sair da experiência de dor, resolvi me iludir com alguém que explicitamente já demonstrava quem era. Mas junto com o prazer momentâneo de fugir da dor, vem a dor de novo e de novo. Pra fugir da dor, você procura experiências que causam mais dor? Seria uma fixação na dor? Sentir prazer na dor? Prazer em causar dor?Prazer em provocar dor em si mesmo? 


E o prazer que não causa dor? Mas êxtase?Ele vem de uma paixão que não rouba, nem sequestra. Uma paixão consentida e construida? Poderia isso ser chamado de paixão? Ou seria amor? Amor como construção coletiva, aprendizado, troca. Parece que a gente só quer amar quem a gente está apaixonado. Mas amar quem a gente não está apaixonado  é o mais difícil.


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