terça-feira, agosto 25, 2026

Se deixar vibrar

Eu queria me apegar naquele momento e eternizar, sacralizar. Mas as pessoas não são os momentos. Elas são também os intervalos entre os momentos. E os intervalos foram ficando cada vez mais longos. Tão longos que não tinha mais como se segurar nos momentos. Os intervalos grandes fizeram sucumbir os momentos, por mais que eles fossem tão doces, mais tão doces, que você queria morar neles. Mas pros momentos se tornarem vida, precisava de presença. Presença, construção, regar a plantinha todo dia pra ela crescer. Uma planta, por mais bonita que ela seja, se a gente não cuida, ela morre. 

Esperei, ansiosa, por uma notícia tua. Mas a notícia não veio, veio um pedido. Mas eu não queria ser vista como um balcão de atendimento onde você deposita seu pedido. Eu queria ser vista como planta, queria ser regada, cuidada, olhada. Como eu ia regar os momentos que tivemos se eles se transformaram em ausência? Na sua ausência, resolvi plantar outra planta no lugar, uma que não precisasse do teu olhar para florir. Apenas vento, sol e a água que eu mesma ponho, todas as manhãs. Nosso amor murchou, morreu, antes mesmo de ter nascido. O que nasceu foi um desejo em mim, eu senti o gosto na boca de como era viver em estado de poesia. E isso não queria mais largar. Uma posição na vida, se colocar num lugar de olhar a vida em estado de gostosura. 

Por que a gente só tem isso quando está apaixonado por alguém? Será que podemos ficar nesse lugar, mesmo sem um objeto de desejo? Fazermos da própria vida esse lugar (objeto não), esse lugar onde o corpo se põe como superfície onde o amor toca? Um corpo que sente a leveza do vento, o quentinho do sol, que enxerga a beleza do pôr-do-sol, todo dia. Um corpo leve, como poesia. Um corpo que dança, se alegra. Por que vivemos sempre em busca de um objeto para o nosso amor? Acho que no momento mesmo em que queremos objetificar o amor, ele se perde, ele vira outra coisa. A gente quer segurar os momentos, repeti-los, intensificá-los, a gente quer controlar. Mas a natureza da vida é outra, ela é fugidia, ela resolve rebolar a beleza dela na nossa frente quando ela quer e se a gente não prestar atenção, ela já se foi.

Cultivar estados de poesia tem a ver com plantar intervalos, lapsos no tempo que corre. E se pôr em sintonia com a vida fugidia. Como uma música, que para ouví-la, precisamos nos sintonizar, sintonizar nosso corpo, nossa energia, nossa vibração para tocar aqueles acordes, mesmo que por segundos. E são esses segundos que nos dão vontade de viver. Não para repeti-los, mas cultivando esses momentos na lembrança. A lembrança reaviva nosso desejo de estar vivos. Então o que tivemos foram momentos dessa sintonia, compartilhamos, juntos, momentos de sincronia com o tempo que corria e se mostrou pra nós. Eu vi, não sei se você viu, não posso garantir. Às vezes a gente supõe que o que sentimos foi compartilhado pelo outro. Mas talvez não. Talvez você tenha visto outras coisas dentro de si que doíam e te impediram de ver o que se passava fora. Ou talvez, aquele momento que era tão especial pra mim, não tenha sido para você. 

Mas o que importa agora é não esquecer desse estado que se abriu em mim, uma abertura para sentir, deixar a pele sensível para sentir o que toca nela, seja uma gota de orvalho, seja um raio de sol, sentir. O medo faz a gente se trancar dentro de si, construir uma armadura num lugar onde nada pode lhe atingir. Mas o medo faz a gente se esconder da vida também. Estar aberto é estar atento para observar quando algo bonito acontece. E a vida desfila bonita na nossa frente com diversas roupagens. Numa orquestra de frevo que desce vibrando todos os nossos nervos, numa pipa voando no céu laranja, na sensação gostosa de boiar no mar. Existem muitas belezas em estar viva. Em sentir que sua respiração está em consonância com o respiro da terra. Se a gente perde essa conexão, a gente morre por dentro. Por isso, é importante se deixar ser tocado pela poesia, mesmo que isso muitas vezes doa. Mas se a gente não vibra, a gente está um pouco morto. Amortecido. Viver é vibrar, a música vibra, a poesia vibra, colocam a gente em estado de vibração, não por acaso. Vamos nos deixar vibrar.