Eu queria me apegar naquele momento e eternizar, sacralizar. Mas as pessoas não
são os momentos. Elas são também os intervalos entre os momentos. E os
intervalos foram ficando cada vez mais longos. Tão longos que não tinha mais
como se segurar nos momentos. Os intervalos grandes fizeram sucumbir os
momentos, por mais que eles fossem tão doces, mais tão doces, que você queria
morar neles. Mas pros momentos se tornarem vida, precisava de presença.
Presença, construção, regar a plantinha todo dia pra ela crescer. Uma planta,
por mais bonita que ela seja, se a gente não cuida, ela morre.
Esperei, ansiosa,
por uma notícia tua. Mas a notícia não veio, veio um pedido. Mas eu não queria
ser vista como um balcão de atendimento onde você deposita seu pedido. Eu queria
ser vista como planta, queria ser regada, cuidada, olhada. Como eu ia regar os
momentos que tivemos se eles se transformaram em ausência? Na sua ausência,
resolvi plantar outra planta no lugar, uma que não precisasse do teu olhar para
florir. Apenas vento, sol e a água que eu mesma ponho, todas as manhãs. Nosso
amor murchou, morreu, antes mesmo de ter nascido. O que nasceu foi um desejo em
mim, eu senti o gosto na boca de como era viver em estado de poesia. E isso não
queria mais largar. Uma posição na vida, se colocar num lugar de olhar a vida em
estado de gostosura.
Por que a gente só tem isso quando está apaixonado por
alguém? Será que podemos ficar nesse lugar, mesmo sem um objeto de desejo?
Fazermos da própria vida esse lugar (objeto não), esse lugar onde o corpo se põe
como superfície onde o amor toca? Um corpo que sente a leveza do vento, o
quentinho do sol, que enxerga a beleza do pôr-do-sol, todo dia. Um corpo leve,
como poesia. Um corpo que dança, se alegra. Por que vivemos sempre em busca de
um objeto para o nosso amor? Acho que no momento mesmo em que queremos
objetificar o amor, ele se perde, ele vira outra coisa. A gente quer segurar os
momentos, repeti-los, intensificá-los, a gente quer controlar. Mas a natureza da
vida é outra, ela é fugidia, ela resolve rebolar a beleza dela na nossa frente
quando ela quer e se a gente não prestar atenção, ela já se foi.
Cultivar
estados de poesia tem a ver com plantar intervalos, lapsos no tempo que corre. E
se pôr em sintonia com a vida fugidia. Como uma música, que para ouví-la,
precisamos nos sintonizar, sintonizar nosso corpo, nossa energia, nossa vibração
para tocar aqueles acordes, mesmo que por segundos. E são esses segundos que nos
dão vontade de viver. Não para repeti-los, mas cultivando esses momentos na
lembrança. A lembrança reaviva nosso desejo de estar vivos. Então o que tivemos
foram momentos dessa sintonia, compartilhamos, juntos, momentos de sincronia com
o tempo que corria e se mostrou pra nós. Eu vi, não sei se você viu, não posso
garantir. Às vezes a gente supõe que o que sentimos foi compartilhado pelo
outro. Mas talvez não. Talvez você tenha visto outras coisas dentro de si que
doíam e te impediram de ver o que se passava fora. Ou talvez, aquele momento que
era tão especial pra mim, não tenha sido para você.
Mas o que importa agora é
não esquecer desse estado que se abriu em mim, uma abertura para sentir, deixar
a pele sensível para sentir o que toca nela, seja uma gota de orvalho, seja um
raio de sol, sentir. O medo faz a gente se trancar dentro de si, construir uma
armadura num lugar onde nada pode lhe atingir. Mas o medo faz a gente se
esconder da vida também. Estar aberto é estar atento para observar quando algo
bonito acontece. E a vida desfila bonita na nossa frente com diversas roupagens.
Numa orquestra de frevo que desce vibrando todos os nossos nervos, numa pipa
voando no céu laranja, na sensação gostosa de boiar no mar. Existem muitas
belezas em estar viva. Em sentir que sua respiração está em consonância com o
respiro da terra. Se a gente perde essa conexão, a gente morre por dentro. Por
isso, é importante se deixar ser tocado pela poesia, mesmo que isso muitas vezes
doa. Mas se a gente não vibra, a gente está um pouco morto. Amortecido. Viver é
vibrar, a música vibra, a poesia vibra, colocam a gente em estado de vibração,
não por acaso. Vamos nos deixar vibrar.