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terça-feira, novembro 23, 2010
Janaína escutou uma amiga dizer uma frase que muito lhe fez rir, disse ela "cansei de ser profunda". Ela se riu porque há muito tinha tomado a mesma decisão, desistiu da carreira acadêmica, das discussões filosóficas, das buscas pelo sentido último de todas as coisas e decidiu que não queria mais fazer outra coisa senão sentar-se em seu quintal e bordar. Vez por outra, alisar a cabeça da sua gatinha aqui, escutar um canto de passarinho acolá e nada mais. Tinha cansado de buscar explicações pra entender seus sentimentos, autoconhecimento, o quê? Ela se conhecia muito bem e sabia que quem ficava procurando isso estava na verdade era inventando sempre um eu diferente, criando eus eternamente. Quanto mais ficavam a questionar o que sentiam, indo pra milhões de terapeutas, estavam era criando sentimentos e inventando sofrimentos sem fim. Ela passou tanto por isso que cansou. Agora tudo era muito simples, o caminhão do lixo passava na hora certa, o leiteiro também, a flor que ela tinha plantando com carinho nascia quando tinha que nascer, tudo estava certo. Agora entendia o que os poetas queriam dizer quando falavam na simplicidade. Era isso sim, a vida era muito fácil de viver, esses filósofos é que teimam em complicar. Então fico com os poetas.
quinta-feira, maio 13, 2010
Tinham dias que ela acordava, colocava um batom vermelho e saía. Esses eram os dias em que ela queria ser outra. Pensava no que ela nunca faria e fazia exatamente essas coisas. É certo que existia uma limite pra isso. Nunca sairia de um jeito que acharia ridículo. Ser outra não era sinônimo disso. Mas gostava de ver a vida assim, cada dia por um ângulo novo. Num dia construía todas as certezas do mundo, só pra ter o prazer de destruí-las todinhas, uma a uma, no outro dia. Isso a fazia crescer. Perceber que nada existia, que nada era de um jeito só, e ao mesmo tempo que tudo podia ser. Só tentava amadurecer a tal ponto que não se decepcionasse quando suas certezas anteoriores ruissem. Queria ser assim, uma pessoa que não se afeta com essas coisas. Uma pessoa que só se afeta na medida certinha, nem demais, nem de menos. E isso era tão difícil pra ela, logo ela que se afetava com quase tudo, um poço carregado de água, que era arrastada pelas emoções. Então, cada vez que conseguia segurar o choro era uma vitória, se achava forte que só. Mas ao mesmo tempo ela gostava tanto de chorar, parece que ela se sentia mais viva nesses momentos, sentia a dor tomar todo seu corpo e sair, como uma catarse, naquelas lágrimas. Daquela vez ela chorou assim de propósito, como que para tirar tudo de ruim que tinha dentro dela, como se estivesse parindo algo, se encurvava toda, e aquilo saía de seu ventre e caía nas lágrimas, e saía no som. Mas quando ela conseguia segurar um choro também era muito bom. Porque lhe dava uma firmeza pra agir no mundo, mesmo ele sendo tão difícil. Ela ficava corajosa e acreditava que ia conseguir. Pode ser que esse seja um dilema que irá perpassar toda a sua vida. As pessoas fortes não caem em pranto por qualquer coisa. Ao mesmo tempo, as pessoas que nunca choram parecem tão duras, como se não existisse sensibilidade ali.
Mas no fim das contas, o que estava presente agora era a alegria, alegria do fogo, do entusiasmo, de ver muita energia nas pessoas e essa energia ir lhe contagiando. Ser alegre é tão bom! Mas sabia que também aí tinha que ter calma, afinal, essa alegria tinha que brotar de dentro dela, ela não podia ficar dependente da energia alheia. Mas também era muito difícil se controlar, afinal tudo acontecia ao mesmo tempo, idéias empolgantes de um lado, um “não sei porque, mas te amo tanto” de outro lado. Ah, assim ela não agüentava, não podia não amolecer!
Mas no fim das contas, o que estava presente agora era a alegria, alegria do fogo, do entusiasmo, de ver muita energia nas pessoas e essa energia ir lhe contagiando. Ser alegre é tão bom! Mas sabia que também aí tinha que ter calma, afinal, essa alegria tinha que brotar de dentro dela, ela não podia ficar dependente da energia alheia. Mas também era muito difícil se controlar, afinal tudo acontecia ao mesmo tempo, idéias empolgantes de um lado, um “não sei porque, mas te amo tanto” de outro lado. Ah, assim ela não agüentava, não podia não amolecer!
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Desventuras de Janaína
domingo, abril 25, 2010
Assim como a gata
Todas as noites, quando a mãe lhe dizia "Filha, vá descer com o cachorro", ela fazia muxoxo mas descia. Ela não sabia o porquê da contrariedade se na verdade ela gostava muito de estar lá embaixo com Juca, era o único momento em que vivia realmente o lugar em que morava. Em que aquele lugar não era mais um lugar de passagem para entrada no seu quadrado fechado, no seu teto. Janaína sempre teve essa sensação, a de que o homem constrói quadrados pra se esconder dentro. E esse lugar fechado a sufoca, a impede de estar com o mundo, com o céu, com o ar livre. Parava pra pensar mesmo em como era tudo tão louco, as invenções humanas, se resfria ar, se condensa o ar em pequenos focos pra perceber a existência dele... Ela gostava mesmo era de sentir brisa. Tá certo, tinha uma invenção humana que ela gostava muito, era o vento que o carro consegue deixar tão fortemente bater no nosso rosto, assanhar nosso cabelo. É tão intensa a forma que ele nos toca nessa situação. Fora a forma de se ver a paisagem bem rápido, conseguindo apreciar tudo ao mesmo tempo, tudo que só a vista não alcança. O homem tem muitas invenções bonitas sim, pra num falar das câmeras... de vídeo, de fotografia. E ela ria de pensar essas coisas. Mas tudo pra dizer o quanto gostava de estar lá embaixo, deitada num banquinho frio de cimento, com os pés na grama, sentindo um ventinho, escutando-o balançar as folhas, com os olhos no céu e as mãos na gata, sua fiel companheira desses momentos. Enquanto Juca rebolava o bumbum andando, ou dava pulinhos, de orelha balançante, cheirando aqui e ali, fazendo xixi aqui e ali não percebia que as mãos de Janaína tocavam era a gata. Não se sabe quem acariciava quem, se Janaína à gata, se a gata à Janaína. Ela se roçava na garota com todo o corpo, esmolando carinho, enquanto a menina adorava olhar o céu e sentir aquele pelo macio, ir passando a mão pelas costelas da gata, pelas orelhas, arrodear a cabeça. Janaína se achava parecida com a gata, se pudesse trocar não teria mais um cachorro. Sua personalidade tinha muito mais a semelhança vagarosa e libertária da gata do que a serelepe e dependente de Juca... Olhar o céu era limpar a vista e se aquietar por inteira. Janaína tinha a sensação de não só estar olhando-o, como se faz com uma televisão, mas de adentrá-lo, como aqueles personagens que entram na tela. Era bem isso que sentia. Na verdade era essa a sensação que Janaína sentia com o mundo de forma geral. Ela estava sempre experienciando-o com seus sentidos todos. Por isso que muitas vezes a menina ficava muda, porque não conseguia dizer nada, racionalizar, esse era um momento posterior, antes ela só conseguia entrar e viver, e sentir. Depois é que ela podia realizar a suspensão e refletir sobre o momento. As duas coisas não podiam ser feitas ao mesmo tempo. Por isso ficava muito impressionada com alguns amigos que tinham a capacidade de viver os momentos ao mesmo tempo em que os objetivavam em palavras de maneira articulada e sistemática. O máximo que ela conseguia fazer era balbuciar algumas palavras que expressavam mais sentimentos que pensamentos. E ficava pensando se sempre seria assim, um pouco preocupada, já que isso a impedia de se relacionar às vezes, quer dizer, vamos ser sinceros, muitas vezes, a majoritária parte das vezes. E se encontrar com os outros era muito importante pra ela, por isso o dilema. Ela não conseguia viver sozinha com seu mundo, afinal a beleza de tudo era mais real com as outras pessoas, era uma escolha até política dela. Não, não queria ser só. Mas ao mesmo tempo como fazer se não conseguia ser sociável? O máximo que conseguia socializar era com os amigos que já tinha. E pra entrar mais um que seja no seu círculo de amigos era tão complicado que essa pessoa teria que ter muita paciência, já que ela era lenta com uma gata. Primeiro ela olhava bem, observava, tinha que se sentir segura. Até ela se sentir em casa ao ponto de ser natural era todo um processo. Por isso que tinha poucos amigos, afinal, haja paciência. Muitos que ela conhecia, por não terem a mesma velocidade que ela, achavam que ela não estava aberta e pronto iam se embora. Uma vez lhe disseram que ela parecia um “monólito” ou palavra parecida, que ela entendeu como uma rocha difícil de acessar. Pois era assim mesmo que ela se sentia. Porém, era o extremo oposto quando chegava o ponto de se sentir em casa, aí era sentimental até dizer basta. Adorava falar pros amigos que os amava, porque sentia um carinho tão forte por eles, um afeto. Essa é uma palavra boa, porque lembra calor, um calor que se sente por dentro, o mesmo de deitar numa cama bem quentinha em dia frio, com a cabeça num travesseiro bem fofinho. Era essa mesma sensação que tinha ao olhar os amigos sentia o calor que o afeto dá. Mas as vezes também, aí pode ser que seja o afeto já transformado em paixão, sentia uma pontadinha no peito, que lhe trazia um riso no rosto de felicidade das mais intensas, no sentido literal, porque parecia que via lá do fundinho de seu ser, é como se conseguisse acessar algo bem lá dentro. E essa sensação trazia felicidade. Mas às vezes trazia medo também, acho que o medo vem justamente da sensação de não querer perder aquilo. Então, olhar pro céu acalmava e trazia uma paz que fazia ela esquecer dessas coisas. E de tantas outras que a perturbavam. Eram doses homeopáticas da calma e da serenidade do céu o que ela tomava todos os dias pra conseguir ir vivendo, assim como a gata, que não pensava em nada disso, mas que Janaína sabia que compartilhava do mesmo motivo de estar ali.
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terça-feira, abril 13, 2010
Na sala, enquanto os outros cospem palavras sem nenhum sentido, palavras secas, mudas, ela não consegue escutá-las. Descobriu que não consegue mais se comunicar dessa maneira, agora só entende aquilo que a faz sentir, aquilo que toca sua pele e que a faz a todo instante ser já ontem. Descobriu que o caminho dos seus ouvidos passa por toda a superfície do seu corpo, pra depois penetrá-la por inteiro. Não ouve mais só com esse orifício, seu corpo todo agora se comunica.
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segunda-feira, agosto 17, 2009
Janaína tava andando, com aquele vestidinho de algodão, leve, que deixava o vento tocar seu corpo e ia sentindo o sol quentinho lhe aquecer. Fazia tanto tempo que ela não sentia essa sensação de que o sol existe. Tinha ficado muito tempo em casa, por isso passou esse tempo triste. O sol lhe trazia a sensação de que a alegria existe, e ia preenchendo ela, e fazia ela se mover com mais vontade. O mundo parecia muito bonito nesses dias, o ônibus tava cheio porque todo mundo queria ir pra praia. Era tão bom ir pra praia! Ela lembrava quando era ela que fazia isso com as amigas. Passar o dia lá, tomando sol, sentindo a brisinha, conversando, tomando banho! E era de graça, por isso que era o passatempo predileto de tanta gente. O céu tava bem azulzinho, as nuvens bem desenhadinhas, em floquinhos. Ela começou a sentir a alegria de novo, tinha esquecido que ela existia, naqueles tempos de melancolia chuvosa, de só perceber tristeza nos rostos. Agora ela cantava com força e sorria, e dizia que queria se consumir como uma vela, era essa mesmo a sensação que ela tinha, ela sumia e sobrava luz. Ela voltou a lembrar também de quem ela era, lembrou que gostava muito de literatura, mas ao mesmo tempo sofria com isso, porque ela fazia com que ela só se sentisse feliz ou quando tava lendo ou escrevendo... e não sabia como resolver esse impasse.. Ultimamente também ela tava percebendo mais do que nunca a fluidez do mundo, tudo é aberto e você vai construindo. As pessoas é que estão muito acostumadas em ir pelo caminho mais fácil, de se inserir em caixinhas. Mas ela estava num caminho sem volta, a partir do momento que percebeu a existência das caixinhas não conseguia mais entrar em nenhuma delas. E isso a deixava meio perdida no mundo. Ao mesmo tempo que achava muito bonita a fluidez, a possibilidade de se construir aquilo que a gente quiser, também achava isso muito difícil, e não sabia se conseguiria. Aí pensava que seria muito mais fácil se ela nunca tivesse pensado em nada disso, viveria e pronto, como Alberto, sem pensar no porque das coisas. E ficava nessa dança, de querer entrar nesse mundo novo, cheio de mistério e de perceber como é difícil entrar nele.. Mas pelo menos agora se lembrava da existência da felicidade, isso ajudava um pouco.
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Desventuras de Janaína
quinta-feira, maio 07, 2009
Janaína hoje, diferentemente dos últimos dias, acordou cedo. Colocou o despertador justamente pra isso. Ela ia ver seu professor falar. Mas algo aconteceu que ela resolveu não ir mais, ela começou a ter pensamentos negativos e pensou que devia parar de tê-los. Então a menina ficou em casa, querendo limpar sua mente. E ficou e ficou, até que começou a relaxar. De tarde, ao falar com seus amigos, resolve que vai vê-los todos, a eles e ao professor. Quando chega começa a surgir nela um misto de sentimentos que ela não consegue explicar, tem vontade de chorar, escreve algumas linhas. Assiste a palestra. Vê muitas pessoas e fica desconcertada, alegre, insegura, segura, tudo ao mesmo tempo. Parece que ela tinha se desacostumado a ver gente. Agora só fazia ficar em casa ou ir pros mesmos lugares e ver as mesmas pessoas. Num sabia mais como era isso de ver um bocado de gente que ela num esperava. Conversa com seu amigo que tá triste, tem tantos amigos tristes!
Vai pra casa e não consegue se aquietar, tudo mexe lá dentro dela. Não sabe ao certo o que foi. Sente calor e frio, calor e frio. Não que ela um dia tenha duvidado da relação entre o físico, o espiritual e o pscológico, mas hoje sentiu bem na pele o fato, acha até que vai ter febre. Será que foi o que o professor disse? Ela sabe sim, que esse foi um dos elementos que a deixaram assim. Ele sempre falava muitas coisas que ela acreditava, e que mexiam muito com ela. E, ao ponto que ele falava ela ia reconhecendo os pontos em comum com o que estava lendo e deveria estar escrevendo, mas não conseguia. Parece que aquilo era tão certo pra ela, tão verdade e ela tinha tanta vontade de escrever tudo aquilo que não conseguia. Só ficava sonhando com o dia em que seu texto estivesse pronto, ia ser lindo!
Dia desses tinha ido na livraria com o amigo. Pegou um livrinho e leu um conto. E se lembrou de como ler é bom. A literatura era mesmo a melhor coisa já tinham inventado! E era por isso mesmo que seu texto a deixava tão ansiosa, por que falava de literatura também. E quando você fala de coisas queridas, você sempre quer o melhor, por isso é tão difícil. Ela lá, sentada, e aquele outro mundo lhe entrando pelos olhos, percorrendo seu corpo todo, chegando até no coração. Era tão bonito isso. E o pensamento fazia cosquinhas de bonitinho que era. E foi assim que Janaína descobriu uma outra escritora, Ligia Fagundes Teles.
Vai pra casa e não consegue se aquietar, tudo mexe lá dentro dela. Não sabe ao certo o que foi. Sente calor e frio, calor e frio. Não que ela um dia tenha duvidado da relação entre o físico, o espiritual e o pscológico, mas hoje sentiu bem na pele o fato, acha até que vai ter febre. Será que foi o que o professor disse? Ela sabe sim, que esse foi um dos elementos que a deixaram assim. Ele sempre falava muitas coisas que ela acreditava, e que mexiam muito com ela. E, ao ponto que ele falava ela ia reconhecendo os pontos em comum com o que estava lendo e deveria estar escrevendo, mas não conseguia. Parece que aquilo era tão certo pra ela, tão verdade e ela tinha tanta vontade de escrever tudo aquilo que não conseguia. Só ficava sonhando com o dia em que seu texto estivesse pronto, ia ser lindo!
Dia desses tinha ido na livraria com o amigo. Pegou um livrinho e leu um conto. E se lembrou de como ler é bom. A literatura era mesmo a melhor coisa já tinham inventado! E era por isso mesmo que seu texto a deixava tão ansiosa, por que falava de literatura também. E quando você fala de coisas queridas, você sempre quer o melhor, por isso é tão difícil. Ela lá, sentada, e aquele outro mundo lhe entrando pelos olhos, percorrendo seu corpo todo, chegando até no coração. Era tão bonito isso. E o pensamento fazia cosquinhas de bonitinho que era. E foi assim que Janaína descobriu uma outra escritora, Ligia Fagundes Teles.
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Desventuras de Janaína
sexta-feira, abril 24, 2009
As janelinhas de Janaína
Fazia alguns dias que Janaína acordava sempre com um vazio lá dentro, não sabia ao certo o que era, tentava de tudo e nada.
Ela começou mesmo a perceber o que vinha ocorrendo quando voltou a escutar Caetano, se teve uma coisa que mexeu com ela, foi quando o escutou dizer: "Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele". A forma como ele se remeteu ao amigo emocionou a menina, desse jeito que só as palavras conseguem fazer.
Então, ela percebeu o que era: era de falta de poesia que ela vinha sofrendo... Sua amiga, sua Gil, com quem vivia momentos que eram poesias materializadas, não estava aqui.
Então, finalmente a menina se deu conta que precisava ler urgentemente. Utilizou de todos os meios possíveis, recorreu àqueles que costumava ler antes, juntou todos num lugar só, de forma que conseguisse acompanhá-los.
E assim vem fazendo desde então, e tem sido bom pra ela. Entre uma pausa e outra, vai aqui, ali, nas janelas alheias e lê um pouquinho das pessoas. Ela gosta disso.
Uns a fazem rir de engraçados que são, outros, rir da beleza de certas coisas, outros ela gosta pela ousadia das invenções daqueles que praticam a literatura radicalmente - ou seja, criação em último grau de abstração, outros ainda falam pelo sentir, um sentir diferente do que a menina tá acostumada, e que ela gosta justamente por causa disso.
Com um dos donos dessas janelinhas, a menina inclusive fez um trato “Eu te leio, e tu me lê”, então não podia descumprir, afinal trato é trato! Assim, tinha um motivo a mais pra escrever a sua própria janelinha.
Se sentia até um pouco pressionada por um deles, que falava mal de quem demorava a atualizar sua janelinha!
Mas ela só resolvia mesmo escrever quando tava comendo pão com bem muito queijo (percebendo como queijo é gostoso!!), com os olhos parados, daquele jeito que se olha e não se olha ao mesmo tempo para algum lugar, e pensava: “É, até que eu podia parar e escrever que queijo é tão bom”, aí ia lá e escrevia.
Mas ela tava falando mesmo era da poesia, pois é, mas quando ela fala a palavra poesia, ela quer dizer não só aquele tipo de texto, como também aquela substância fluídica que está presente em algumas coisas – se bem que agora ela pensa: tá presente nas coisas, ou são as pessoas, que a partir da relação que estabelecem com elas, criam essa poesia? E conclui, está sim presente nas coisas, mas pra percebê-las tem que se entrar na sua sintonia.
Era assim que funcionava, se algo tinha uma freqüência “b” e você estivesse na “a”, nada feito, nada de poesia. E pensava agora, será que existem pessoas que tem, definitivamente uma freqüência “b”, e que nunca sentiriam nada que estivesse na “a”? E desistiu de pensar isso, porque tava muito chato esse pensamento, parecia até matemática! Abraão – meu querido e eterno professor da matéria - que me perdoe, mas é chatinho brincar com as letras desse jeito! Prefiro juntar “a” com “b” e com outras letras mais e formar “abraço”, bem melhor! Letras, que juntas despertam uma sensação boa de conforto, de carinho!
Falar de Abraão agora, lembrou-a de sua ida ao Aplicação – sua antiga Hogwarts – foi lá, passou pelos corredores, olhou os professores pelos vidrinhos das portas, estavam lá daquele mesmo jeito, Marcos, cara de desavergonhado, Marta, séria, sisuda. Olhava praquelas crianças, lembrando que um dia tinha sido uma daquelas. Lá, parecia que tinha entrado numa outra atmosfera, esqueceu de tudo que tinha pra fazer, e ficou ali, rindo e olhando o passado.
Janaína não chegou a ficar triste com a visita, com aquele sentimento de saudosismo que às vezes se tem em situações como essa. E ela sabia bem o porquê: já tinha uma nova Hogwarts. E nesse mesmo dia foi lá. A fazia tão bem aquele lugar, lá era poesia respirante – roubando essa expressão de algum lugar que li.
Lembrou, então, de quando ele fez uma cara séria, engrossou a voz, e falou de quando ele não estivesse mais lá. Não tinha forma mais perturbadora do que terminar desta forma. E fomos embora, levando aquele dizer lá dentro, pesado.
Ela começou mesmo a perceber o que vinha ocorrendo quando voltou a escutar Caetano, se teve uma coisa que mexeu com ela, foi quando o escutou dizer: "Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele". A forma como ele se remeteu ao amigo emocionou a menina, desse jeito que só as palavras conseguem fazer.
Então, ela percebeu o que era: era de falta de poesia que ela vinha sofrendo... Sua amiga, sua Gil, com quem vivia momentos que eram poesias materializadas, não estava aqui.
Então, finalmente a menina se deu conta que precisava ler urgentemente. Utilizou de todos os meios possíveis, recorreu àqueles que costumava ler antes, juntou todos num lugar só, de forma que conseguisse acompanhá-los.
E assim vem fazendo desde então, e tem sido bom pra ela. Entre uma pausa e outra, vai aqui, ali, nas janelas alheias e lê um pouquinho das pessoas. Ela gosta disso.
Uns a fazem rir de engraçados que são, outros, rir da beleza de certas coisas, outros ela gosta pela ousadia das invenções daqueles que praticam a literatura radicalmente - ou seja, criação em último grau de abstração, outros ainda falam pelo sentir, um sentir diferente do que a menina tá acostumada, e que ela gosta justamente por causa disso.
Com um dos donos dessas janelinhas, a menina inclusive fez um trato “Eu te leio, e tu me lê”, então não podia descumprir, afinal trato é trato! Assim, tinha um motivo a mais pra escrever a sua própria janelinha.
Se sentia até um pouco pressionada por um deles, que falava mal de quem demorava a atualizar sua janelinha!
Mas ela só resolvia mesmo escrever quando tava comendo pão com bem muito queijo (percebendo como queijo é gostoso!!), com os olhos parados, daquele jeito que se olha e não se olha ao mesmo tempo para algum lugar, e pensava: “É, até que eu podia parar e escrever que queijo é tão bom”, aí ia lá e escrevia.
Mas ela tava falando mesmo era da poesia, pois é, mas quando ela fala a palavra poesia, ela quer dizer não só aquele tipo de texto, como também aquela substância fluídica que está presente em algumas coisas – se bem que agora ela pensa: tá presente nas coisas, ou são as pessoas, que a partir da relação que estabelecem com elas, criam essa poesia? E conclui, está sim presente nas coisas, mas pra percebê-las tem que se entrar na sua sintonia.
Era assim que funcionava, se algo tinha uma freqüência “b” e você estivesse na “a”, nada feito, nada de poesia. E pensava agora, será que existem pessoas que tem, definitivamente uma freqüência “b”, e que nunca sentiriam nada que estivesse na “a”? E desistiu de pensar isso, porque tava muito chato esse pensamento, parecia até matemática! Abraão – meu querido e eterno professor da matéria - que me perdoe, mas é chatinho brincar com as letras desse jeito! Prefiro juntar “a” com “b” e com outras letras mais e formar “abraço”, bem melhor! Letras, que juntas despertam uma sensação boa de conforto, de carinho!
Falar de Abraão agora, lembrou-a de sua ida ao Aplicação – sua antiga Hogwarts – foi lá, passou pelos corredores, olhou os professores pelos vidrinhos das portas, estavam lá daquele mesmo jeito, Marcos, cara de desavergonhado, Marta, séria, sisuda. Olhava praquelas crianças, lembrando que um dia tinha sido uma daquelas. Lá, parecia que tinha entrado numa outra atmosfera, esqueceu de tudo que tinha pra fazer, e ficou ali, rindo e olhando o passado.
Janaína não chegou a ficar triste com a visita, com aquele sentimento de saudosismo que às vezes se tem em situações como essa. E ela sabia bem o porquê: já tinha uma nova Hogwarts. E nesse mesmo dia foi lá. A fazia tão bem aquele lugar, lá era poesia respirante – roubando essa expressão de algum lugar que li.
Lembrou, então, de quando ele fez uma cara séria, engrossou a voz, e falou de quando ele não estivesse mais lá. Não tinha forma mais perturbadora do que terminar desta forma. E fomos embora, levando aquele dizer lá dentro, pesado.
terça-feira, agosto 05, 2008
Ela começa a escrever com medo de sujar o caderno bonito que ele lhe deu. Pensa em como é bonito mesmo esse presente, ele veio interminado. As letras que escreve o completam. Lembra do filme que viu enquanto vê o chão se mover.
Janaína volta a escrever depois de longo tempo. Escreve e sonha a uma só vez. Lembra do amigo escritor que está em seus sonhos. Será que ele precisa dela? No sonho ela o abraça mas ele não diz nada. Será que você um dia me falará algo? Ou nossa comunicação continuará em olhares e gestos vazios?
Ela sempre pensou que no mundo existem pessoas que não nasceram para conversar com certas outras pessoas. Existe uma espécie de imã comunicativo que ou funciona ou não funciona. Pronto.
Com ele era assim. Mas no fundo ela achava que se comunicava de outra maneira com ele.
Janaína passara por um momento bom, de reencontros, espirituais, afetivos, momentos bem felizes. Hoje ela não mas percebia a felicidade como momentos efusivos. Ao contrário, eram mansos e profundos.
Janaína sempre teve essa mania de profundidade. Uma vez até um amigo tirou sarro dela perguntando se existem níveis de profundidade. Mas era assim e pronto.
Ela passava muitos momentos calada como que a absorver tudo o que se passava ao seu redor. Não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo: agir e observar, então optava pela segunda. Pra falar o que pensava parece que ela precisava se sentir em casa, por isso, fugia de todas as situações em que isso demorava a acontecer.
Hoje ela havia falado tanto que pensou que qualquer coisa era possível.Tudo é possível de ser dito. E isso tinha um poder transformação muito grande. Parece que a gente sempre é acostumado a agir segundo alguns princípios, determinações e quando a gente começa a rompê-los tudo fica mais flexível.
Nada existe. Ponto.
Janaína volta a escrever depois de longo tempo. Escreve e sonha a uma só vez. Lembra do amigo escritor que está em seus sonhos. Será que ele precisa dela? No sonho ela o abraça mas ele não diz nada. Será que você um dia me falará algo? Ou nossa comunicação continuará em olhares e gestos vazios?
Ela sempre pensou que no mundo existem pessoas que não nasceram para conversar com certas outras pessoas. Existe uma espécie de imã comunicativo que ou funciona ou não funciona. Pronto.
Com ele era assim. Mas no fundo ela achava que se comunicava de outra maneira com ele.
Janaína passara por um momento bom, de reencontros, espirituais, afetivos, momentos bem felizes. Hoje ela não mas percebia a felicidade como momentos efusivos. Ao contrário, eram mansos e profundos.
Janaína sempre teve essa mania de profundidade. Uma vez até um amigo tirou sarro dela perguntando se existem níveis de profundidade. Mas era assim e pronto.
Ela passava muitos momentos calada como que a absorver tudo o que se passava ao seu redor. Não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo: agir e observar, então optava pela segunda. Pra falar o que pensava parece que ela precisava se sentir em casa, por isso, fugia de todas as situações em que isso demorava a acontecer.
Hoje ela havia falado tanto que pensou que qualquer coisa era possível.Tudo é possível de ser dito. E isso tinha um poder transformação muito grande. Parece que a gente sempre é acostumado a agir segundo alguns princípios, determinações e quando a gente começa a rompê-los tudo fica mais flexível.
Nada existe. Ponto.
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Teve um dia que ela acordou com uma sensação tão diferente! Estranhou no começo, mas depois começou a gostar. Ela parecia que tinha mudado. Quem sempre sentira aquela sensação de vazio dentro do peito, agora estava leve.
E Janaína seguiu vivendo assim, tentando segurar todos aqueles pedaços de sentimento que saiam dela, e eles saiam mais e mais. De repente ela tinha parado de ser a sombra do romance que lia e passado a ser, ela própria, a protagonista.
Agora era como se a única vida que sempre tivesse tido fosse essa. Não conseguia nem imaginar a possibilidade de voltar a ser como antes.
E o que era? Ela tinha encontrado aquele cantinho escondido que Marisa canta, que tem em cada pessoa: um lugar pro coração pousar...
E Janaína seguiu vivendo assim, tentando segurar todos aqueles pedaços de sentimento que saiam dela, e eles saiam mais e mais. De repente ela tinha parado de ser a sombra do romance que lia e passado a ser, ela própria, a protagonista.
Agora era como se a única vida que sempre tivesse tido fosse essa. Não conseguia nem imaginar a possibilidade de voltar a ser como antes.
E o que era? Ela tinha encontrado aquele cantinho escondido que Marisa canta, que tem em cada pessoa: um lugar pro coração pousar...
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Desventuras de Janaína
terça-feira, setembro 25, 2007
Ela tava tão muda ultimamente... foi por isso que passei tanto tempo sem escrever aqui.. e minha única leitora assídua reclamou! aqui estou eu então.. vendo se janaína fala pelo menos um pouquinho pra eu contar ...
Ela se sentia mais leve, mais inteira. E essa inteireza ela achava que vinha de uma sensação de tranquilidade. Parecia que finalmente Janaína tinha tomado um decisão! Ela, que era acostumada a se acostumar com as situações (já que com o tempo tudo ia se ajeitando, prova do seu otimismo irremediável), agora tinha parado e pensado e decidido: era isso e pronto.
Mas acontece que a menina num tinha decidido sozinha; e isso era o que a fazia ficar mais resoluta: o que tinha se encaminhado por ela foram, na verdade, seus sentimentos.
Se eu choro só de ouvir tais e tais coisas - pensou a menina - o que mais vou fazer da minha vida se não isso?
Se esquecia a menina de que no mundo real as coisas num eram bem assim.. que não podia sair por aí simplesmente seguindo tudo o que os seus sentidos mandavam! Ela sabia que essa é que era a vida certa e boa. Mas quem disse que o mundo era assim? Era não. O mundo era de gente grande. Existiam regras, responsabilidades, relatórios do pibic.. Ela gostava tanto de estudar, de ir, um por um, estourando os baloezinhos dentro da sua cabeça, que formavam bolhas que cresciam, cresciam e faziam cosquinhas...Mas daí a ter que fazer um relatorio do pibic! Não. Essa não era Janaína.
Ela estava cada vez mais reticente quanto a seu futuro. O que iria fazer então? Não podia trabalhar de estouradora e enchedora de baloezinhos! e agora?
Agora só lhe restava brindar num bar com uma amiga, essa mesma, a leitora pra quem estou escrevendo, brindar à arte, à liberdade, ao fim das instituições! Brindar escutando música boa, falando coisas legais, dizendo que gostava cada vez mais de gostar das pessoas! E ao passo que dizia isso, sentia o gostar brotar e sair dela. Ela percebia que a amiga sentira..
Eh isso pezinhos na janela! Sinta bem muito pro lados de lá o sentimentos que saem das bandas de cá!!
Ela se sentia mais leve, mais inteira. E essa inteireza ela achava que vinha de uma sensação de tranquilidade. Parecia que finalmente Janaína tinha tomado um decisão! Ela, que era acostumada a se acostumar com as situações (já que com o tempo tudo ia se ajeitando, prova do seu otimismo irremediável), agora tinha parado e pensado e decidido: era isso e pronto.
Mas acontece que a menina num tinha decidido sozinha; e isso era o que a fazia ficar mais resoluta: o que tinha se encaminhado por ela foram, na verdade, seus sentimentos.
Se eu choro só de ouvir tais e tais coisas - pensou a menina - o que mais vou fazer da minha vida se não isso?
Se esquecia a menina de que no mundo real as coisas num eram bem assim.. que não podia sair por aí simplesmente seguindo tudo o que os seus sentidos mandavam! Ela sabia que essa é que era a vida certa e boa. Mas quem disse que o mundo era assim? Era não. O mundo era de gente grande. Existiam regras, responsabilidades, relatórios do pibic.. Ela gostava tanto de estudar, de ir, um por um, estourando os baloezinhos dentro da sua cabeça, que formavam bolhas que cresciam, cresciam e faziam cosquinhas...Mas daí a ter que fazer um relatorio do pibic! Não. Essa não era Janaína.
Ela estava cada vez mais reticente quanto a seu futuro. O que iria fazer então? Não podia trabalhar de estouradora e enchedora de baloezinhos! e agora?
Agora só lhe restava brindar num bar com uma amiga, essa mesma, a leitora pra quem estou escrevendo, brindar à arte, à liberdade, ao fim das instituições! Brindar escutando música boa, falando coisas legais, dizendo que gostava cada vez mais de gostar das pessoas! E ao passo que dizia isso, sentia o gostar brotar e sair dela. Ela percebia que a amiga sentira..
Eh isso pezinhos na janela! Sinta bem muito pro lados de lá o sentimentos que saem das bandas de cá!!
sábado, julho 28, 2007
Um dia Janaína tava assim sentada, com a mão no queixo e o braço escorado na perna quando pensou e viu tudo diferente. Ela se sentia mais real agora. Tava calada. Descubriu que na verdade era ela uma menina calada; que quando falava e gesticulava desarvoradamente tava tentando era fugir da Janaína séria e pensativa. Ela também descubrira os pontos e me disse pra encher esse texto deles. Vou fazer. Pode ser que a menina tenha assumido uma atitude mais resoluta. Então os pontos caem realmente bem. Isso quer dizer que ela, que antes era reticente, estava cada vez usando mais pontos. E não só o final, a exclamação também! Não é feia não viu seu Carreiro? É bem bonita! E animada! E viva!
Pois então. A menina estava assim: olhando a vida ir seguindo e vendo como é que se vive. Tentava parar de pensar em manuais e ir simplesmente vivendo. Tudo bem que era difícil. Nada acontecia mais como ela planejava. Por que antes, como ela achava que as coisas iam acontecer do jeito que ela pensava, ela acabava agindo do jeito que achava que era inevitável e as coisas acabavam mesmo acontecendo do jeito que ela pensava. Claro. Ela não deixava abertura pra vida acontecer! Quando aparecia o menor indício de que as coisas não iam dar certo a menina já dizia: Tá vendo! E ia embora deixando as coisas pra trás. Mas agora não. Agora ela deixa a vida acontecer pra ver o que é que vai dar. Desculpe Janaína mas agora tenho que voltar a usar as reticências...
Pois então. A menina estava assim: olhando a vida ir seguindo e vendo como é que se vive. Tentava parar de pensar em manuais e ir simplesmente vivendo. Tudo bem que era difícil. Nada acontecia mais como ela planejava. Por que antes, como ela achava que as coisas iam acontecer do jeito que ela pensava, ela acabava agindo do jeito que achava que era inevitável e as coisas acabavam mesmo acontecendo do jeito que ela pensava. Claro. Ela não deixava abertura pra vida acontecer! Quando aparecia o menor indício de que as coisas não iam dar certo a menina já dizia: Tá vendo! E ia embora deixando as coisas pra trás. Mas agora não. Agora ela deixa a vida acontecer pra ver o que é que vai dar. Desculpe Janaína mas agora tenho que voltar a usar as reticências...
sábado, julho 14, 2007
Ela tinha medo de escrever. Não sempre, mas especialmente naquele momento. Medo de que as palavras buscassem coisas tristes que tinham num buraquinho bem fundo; já que agora só serenidade boiava na sua superfície. Não. Não queria que nada disso voltasse. Então, não iria buscar nada lá fundo, mas apenas escrever sobre o agora. O agora era bom. O agora era bem novo pra Janaína. Ela não via mais graça no pirulito de cera, isso era pras crianças, que ainda amava. Janaína pensava cada vez mais em como seria sua vida futura. Pensara se não poderia apenas continuar se balançando na rede, com um pé do lado de fora sacudindinho, cantando Bethania e gritando e gritando. Ela estava na verdade fugindo, porque percebera que falar do futuro também trazia dor. E a rede ia e vinha. E ela pensava se a vida não era assim: um ir e vir; então, pra quê se preocupar com o futuro se a vida não era linear! ia e vinha, ia e vinha alegre a menina, com um sorriso ingênuo nos lábios. Vez por outra sentia um friozinho no pé. Era Juca... ela adorava o jeito que Juca lambia seu pé ou tirava seu pitó sem arrancar um fio de cabelo. Fazia uma cosquinha! As duas coisas na verdade faziam cosquinha. Mas o que a surpreendia mesmo era o fato do cachorro desamarrar tão delicadamente o seu cabelo! Ela olhava pra frente pra árvore e flores de cores bem fortes e achava tudo muito bonito, e comia um pedaço da goiaba, tão boa! e pensava que isso sim era vida!
quinta-feira, junho 14, 2007
De chorar, era isso que ela tinha vontade de fazer naquelas horas. Horas em que sabia tudo que devia dizer, que tinha certeza que era aquilo que as pessoas deviam entender, mas não entendiam. Ficava então naquele exerício de calar para que as pessoas entendam sozinhas - um amigo lhe ensinara: Não, não fale tudo, deixe que as pessoas descubram - ela concordara, era isso que devia fazer, esperar. Esperar que a vida brote, e só assim as pessoas descubram certas belezas, belezas puras e fortes em algo aparentemente frágil. Mas para ela, Amaranta era tudo tão claro. Era tudo muito bonito, a beleza simples e pura das pessoas. Há algum tempo Amaranta descubira isso, que as pessoas são muito bonitas e ficava encantada de cada vez se encantar mais com elas.
Uma das coisas que Amaranta gostava mais de fazer era descobrir! Descobrir gente, idéias, coisas de sentir diferente. E ficava assim, brincando mesmo de descobrir. Cada dia escutava uma voz e harmonia nova; quando se cansava, achando que já tinha descoberto tudo em relação aquilo então mudava de brinquedo, ia pras letrinhas, tão cheias de coisas novas, tão abarrotadas de idéias que ela não sabia nem como é que cabiam no papel! só que ela acabou descobrindo que as vozes, ou barulhos, nem sempre eram harmoniosos : foi uma mundo crescendo, seus ouvidos se abrindo e se fechando, com as dores, os ruídos, os sons fininhos que arranhavam lá por dentro... Então tropeçou em outra brincadeira, a das cores e formas e sons e que também tinha letras e idéias e tudo mais que uma pessoa quizesse colocar. Abriu um sorriso largo, os braços, sentia que era tudo tão grande, mais tão grande que não ia conseguir ver e sentir e ouvir e pensar tudo ao mesmo tempo; mas as vezes conseguia, e ficava tão feliz! Só que aquilo não durava muito tempo, o balão estourava e ela caía no chão sempre, no fim e estava lá de novo, os rostos que não lhe agradavam porque escondiam, ou mostravam coisas ruins, mesmo que de pessoas que ela sabia que eram boas. Aí ficava triste, com um embrulho lá dentro, pensando que era tão bom se as pessoas não ficassem tristes. Queria sempre chegar e ver sorrisos, mas descobrira também que não era assim que aqui no chão as coisas aconteciam. Era difícil pras pessoas, inclusive pra ela mesma, diante de tanto escuro, de não conseguir enxergar o que é que vem depois, de ter medo de não ser nada.. Chorava e via que assim o medo ia embora, secava, era bom; depois olhava a cara inchada no espelho e ria, nessas horas via que num era difícil viver não, era só chorar, depois a gente ri e pronto acabou.
Uma das coisas que Amaranta gostava mais de fazer era descobrir! Descobrir gente, idéias, coisas de sentir diferente. E ficava assim, brincando mesmo de descobrir. Cada dia escutava uma voz e harmonia nova; quando se cansava, achando que já tinha descoberto tudo em relação aquilo então mudava de brinquedo, ia pras letrinhas, tão cheias de coisas novas, tão abarrotadas de idéias que ela não sabia nem como é que cabiam no papel! só que ela acabou descobrindo que as vozes, ou barulhos, nem sempre eram harmoniosos : foi uma mundo crescendo, seus ouvidos se abrindo e se fechando, com as dores, os ruídos, os sons fininhos que arranhavam lá por dentro... Então tropeçou em outra brincadeira, a das cores e formas e sons e que também tinha letras e idéias e tudo mais que uma pessoa quizesse colocar. Abriu um sorriso largo, os braços, sentia que era tudo tão grande, mais tão grande que não ia conseguir ver e sentir e ouvir e pensar tudo ao mesmo tempo; mas as vezes conseguia, e ficava tão feliz! Só que aquilo não durava muito tempo, o balão estourava e ela caía no chão sempre, no fim e estava lá de novo, os rostos que não lhe agradavam porque escondiam, ou mostravam coisas ruins, mesmo que de pessoas que ela sabia que eram boas. Aí ficava triste, com um embrulho lá dentro, pensando que era tão bom se as pessoas não ficassem tristes. Queria sempre chegar e ver sorrisos, mas descobrira também que não era assim que aqui no chão as coisas aconteciam. Era difícil pras pessoas, inclusive pra ela mesma, diante de tanto escuro, de não conseguir enxergar o que é que vem depois, de ter medo de não ser nada.. Chorava e via que assim o medo ia embora, secava, era bom; depois olhava a cara inchada no espelho e ria, nessas horas via que num era difícil viver não, era só chorar, depois a gente ri e pronto acabou.
sábado, maio 19, 2007
Janaína sentada na parada de ônibus observava, como era de seu costume. Dessa vez, duas crianças, aparentemente irmãs. Uma, tagarela, com jeitos de gente grande dizia - Deus me livre a cada automovel que passava em alta velocidade. A outra, quieta, calada fez logo Janaína se reconhecer. Pensava se seria regra: entre duas irmãs sempre haveria a de língua solta e a observadora! Admirava a pele das crianças. Era aquilo mesmo que diziam: pele lisa, sem deformidades.
Janaína achava engraçado os modos da faladeira (em outra oportunidade seriam motivo suficiente para provocar-lhe irritação; mas hoje não, hoje estava bem apreciadora das coisas da vida, inclusive as irritantes... tanto é que nem se incomodou quando a tal gordinha começou a mexer pra lá e prá cá num ferro provocando um rangido fino), observava sua roupinha pequena, de desenhinhos: um short amarelo com florzinhas bordadas, uma blusa rosa com o desenho de um cachorro, um boné também rosa, com um personagem de história em quadrinhos e as pequenas unhas, da mesma cor, de esmalte descascado.
Janaína pensava que, quando era pequena certamente também se vestira daquela forma. Mas, questionava-se se nessa época reparava ou não nesses detalhes, florzinhas, bordados, desenhos. Talvez não. Então, se as crianças não reparavam naquilo, pra que se desperdiçava atenção a tais banalidades? Cogitou, então, que podia acontecer delas, eventualmente guardarem um desses detalhes na memória.É, podia ser que fosse esse o motivo de sua existência, como era o caso de um broche de palhaço que ela própria tivera. Lembrava-se bem, tinha cabelos de uma espécie de pena vermelha e rosto branco de porcelana. Era isso: o palhaço era o responsável por puxar toda a linha de sua memória. Ou não?
Janaína achava engraçado os modos da faladeira (em outra oportunidade seriam motivo suficiente para provocar-lhe irritação; mas hoje não, hoje estava bem apreciadora das coisas da vida, inclusive as irritantes... tanto é que nem se incomodou quando a tal gordinha começou a mexer pra lá e prá cá num ferro provocando um rangido fino), observava sua roupinha pequena, de desenhinhos: um short amarelo com florzinhas bordadas, uma blusa rosa com o desenho de um cachorro, um boné também rosa, com um personagem de história em quadrinhos e as pequenas unhas, da mesma cor, de esmalte descascado.
Janaína pensava que, quando era pequena certamente também se vestira daquela forma. Mas, questionava-se se nessa época reparava ou não nesses detalhes, florzinhas, bordados, desenhos. Talvez não. Então, se as crianças não reparavam naquilo, pra que se desperdiçava atenção a tais banalidades? Cogitou, então, que podia acontecer delas, eventualmente guardarem um desses detalhes na memória.É, podia ser que fosse esse o motivo de sua existência, como era o caso de um broche de palhaço que ela própria tivera. Lembrava-se bem, tinha cabelos de uma espécie de pena vermelha e rosto branco de porcelana. Era isso: o palhaço era o responsável por puxar toda a linha de sua memória. Ou não?
sábado, abril 21, 2007
Janaína
Porque aquelas músicas mexiam tanto com ela? enchiam seus olhos de lágrimas, seus pêlos se arrepiavam; elas entaravam como uma corrente de ar frio que passeia por todo o corpo e davam uma pontada lá dentro. Faziam-na extasiar-se cantando junto, sorrindo, chorando...
Janaína nunca vivera nenhuma daquelas coisas, então por qual razão era tão tomada por tudo aquilo? era como se cantasse por outras pessoas, sentisse por outras pessoas, vivesse um mundo imaginário que parecia tão real.
Ela, menina calada, tinha passado toda sua vida até então desse jeito: vivendo pelos outros, sofrendo, amando pelos outros. Talvez por isso mesmo gostasse tanto das historias fantasiosas, porque nelas poderia viver, de forma perfeita. Janaína gostava das coisas perfeitas. E como não existia perfeição na vida real, preferia viver o mundo dos sonhos e restar calada no real. E quando a vida real cansava de esperar que Janaína entrasse nela, ela, por conta própria tentava invadir Janaína. Nesses momentos Janaína ficava triste, as coisas queriam fugir do seu controle. Os homens imperfeitos se apaixonavam pela imperfeição dela e ela não sabia lhe dar com isso. Então, dizia não e voltava a cantar e chorar e rir do que nunca tinha vivido. Para ela era muito mais tocante.
Janaína nunca vivera nenhuma daquelas coisas, então por qual razão era tão tomada por tudo aquilo? era como se cantasse por outras pessoas, sentisse por outras pessoas, vivesse um mundo imaginário que parecia tão real.
Ela, menina calada, tinha passado toda sua vida até então desse jeito: vivendo pelos outros, sofrendo, amando pelos outros. Talvez por isso mesmo gostasse tanto das historias fantasiosas, porque nelas poderia viver, de forma perfeita. Janaína gostava das coisas perfeitas. E como não existia perfeição na vida real, preferia viver o mundo dos sonhos e restar calada no real. E quando a vida real cansava de esperar que Janaína entrasse nela, ela, por conta própria tentava invadir Janaína. Nesses momentos Janaína ficava triste, as coisas queriam fugir do seu controle. Os homens imperfeitos se apaixonavam pela imperfeição dela e ela não sabia lhe dar com isso. Então, dizia não e voltava a cantar e chorar e rir do que nunca tinha vivido. Para ela era muito mais tocante.
terça-feira, abril 17, 2007
Janaína
Sempre que Janaína buscava um refúgio lembrava-se daquela casa grande onde vivera momentos tão felizes em tempos passados. Coisas tão boas que lhe marcaram tanto! O doce de leite emboloado, os passeios pela mata, as cadeirinhas brancas de almofadas de coração vermelho, os cinzeiros bronze de joaninha, as rãs no banheiro úmido, aquele cheiro de madeira, o chão frio, a luz vinda das frestras da janela, as bonecas nas pranchas do quarto, de olhos redondos, o caminhar ao som de estalos de finas madeiras que se encontravam no chão, arranhando-se nas plantas espinhosas... lembrava-se bem do tilintar daqueles sinos nos pescoços dos bois, do falar histérico das cabras, do cheiro de extrume do curral, daquela terra alaranjada..
Era incrível como essas lembranças lhe marcavam, serviam de refúgio. Na verdade, uma esperançazinha de reviver todas essas coisas, mesmo tendo a certeza de que elas nunca voltariam.
Estava tudo destruído, carcomido, tomado pelos excrementos dos morcegos, vazio, sem vida.
Essas recordações, há muito tempo distantes, não lhe doíam tanto, apesar de serem bem profundas. Mas as outras, as recentes, tão boas que pareciam sonhos traziam-lhe sentimentos contraditórios. Por vezes ficava feliz, se percebia rindo, em outras, aquilo lhe perturbava, fazia-a perceber o quão tiste é o momento de agora em comparação àquele. Será, então, melhor nunca passar momentos tão bons? viver numa estabilidade tranquila? Ela sabia que não, pois isso era também desconfortante. Ou melhor, era o motivo maior de suas tristezas... Não havia, então, saída alguma. Apenas esperar pra ver o que acontece... "botar o corpo no mundo", como diria certo amigo ao citar a música..
Era incrível como essas lembranças lhe marcavam, serviam de refúgio. Na verdade, uma esperançazinha de reviver todas essas coisas, mesmo tendo a certeza de que elas nunca voltariam.
Estava tudo destruído, carcomido, tomado pelos excrementos dos morcegos, vazio, sem vida.
Essas recordações, há muito tempo distantes, não lhe doíam tanto, apesar de serem bem profundas. Mas as outras, as recentes, tão boas que pareciam sonhos traziam-lhe sentimentos contraditórios. Por vezes ficava feliz, se percebia rindo, em outras, aquilo lhe perturbava, fazia-a perceber o quão tiste é o momento de agora em comparação àquele. Será, então, melhor nunca passar momentos tão bons? viver numa estabilidade tranquila? Ela sabia que não, pois isso era também desconfortante. Ou melhor, era o motivo maior de suas tristezas... Não havia, então, saída alguma. Apenas esperar pra ver o que acontece... "botar o corpo no mundo", como diria certo amigo ao citar a música..
segunda-feira, março 19, 2007
Janaína
Janaína hoje, especialmente hoje, acordara com um sorriso singelo nos lábios. Não sabia exatamente o porquê; talvez pelo vento frio que tocava sua pele; talvez por ter conseguido eliminar um pouco do peso que as obrigações deixam nas costas; talvez, pela música, que a fazia ter boas lembranças; talvez pela soma disso tudo; ou até por nada disso... Apenas acordara feliz e ponto. Pensava se era assim mesmo que as coisas aconteciam, ao acaso. Será que era assim, dias em que não suportava ouvir o mínimo barulho, e outros em que era tomada por uma síndrome de tropicália, achava tudo divino e maravilhoso?
Mas o fato é que se levantara, vestira seu vestido florido de pano, leve como ela se sentia, balançando-se com o vento que chegava; e ficara lá na janela, sentido um sol ainda morno, aquele que apenas fazia fechar um pouco os olhos, mas esquentava o rosto, dando um gosto de vida. O cheiro de dia chegava pelo café na cozinha, e o som vinha dos barulhos que sua mãe fazia pra prepará-lo. Ela gostava muito de tudo isso, de ter dormido olhando para aquelas telhas, com buraquinhos, que, quando era manhã deixava entrar a luz. Era aquilo que a fazia feliz.
Mas é certo que nem sempre enxergava tudo aquilo. Quando sua redoma de sentir era invadida por cotidianos, obrigações gritadas ao pé do ouvido. Não queria isso, queria acordar e ir se acostumando aos poucos com o mundo real, primeiro com as coisas boas e leves de que gostava; depois, aí sim é que colocaria novamente o peso nas costas... Por isso, acordava calada, não falava nada para que ninguém sentisse a liberdade de falar-lhe; e, se alguém, antes que ela deixasse claro seu pacto de silêncio, começava a perguntar-lhe, perguntar-lhe, ela não via outra saída senão não responder nada. E assim, todos em sua casa já sabiam. Mas, ainda assim, insistiam em falar-lhe. Ela, que sabia bem que quando as pessoas falam com outras, estão à espera de ouvidos apenas,e não de bocas que lhe atrapalhem; unia o útil ao agradável e ficava calada.
Mas o fato é que se levantara, vestira seu vestido florido de pano, leve como ela se sentia, balançando-se com o vento que chegava; e ficara lá na janela, sentido um sol ainda morno, aquele que apenas fazia fechar um pouco os olhos, mas esquentava o rosto, dando um gosto de vida. O cheiro de dia chegava pelo café na cozinha, e o som vinha dos barulhos que sua mãe fazia pra prepará-lo. Ela gostava muito de tudo isso, de ter dormido olhando para aquelas telhas, com buraquinhos, que, quando era manhã deixava entrar a luz. Era aquilo que a fazia feliz.
Mas é certo que nem sempre enxergava tudo aquilo. Quando sua redoma de sentir era invadida por cotidianos, obrigações gritadas ao pé do ouvido. Não queria isso, queria acordar e ir se acostumando aos poucos com o mundo real, primeiro com as coisas boas e leves de que gostava; depois, aí sim é que colocaria novamente o peso nas costas... Por isso, acordava calada, não falava nada para que ninguém sentisse a liberdade de falar-lhe; e, se alguém, antes que ela deixasse claro seu pacto de silêncio, começava a perguntar-lhe, perguntar-lhe, ela não via outra saída senão não responder nada. E assim, todos em sua casa já sabiam. Mas, ainda assim, insistiam em falar-lhe. Ela, que sabia bem que quando as pessoas falam com outras, estão à espera de ouvidos apenas,e não de bocas que lhe atrapalhem; unia o útil ao agradável e ficava calada.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Por que será que toda vez que me ponho a ler me vem à mente os sonhos mais bizarros que já tive? É como se minha mente pegasse no tranco e começasse a vasculhar seus lugares mais longínquos. É só começar a leitura e já vêm na cabeça milhões de imagens antigas e novas, sonho e realidade, tudo se mistura. e ao invés de subjetivar o que está ali, objetivo, a minha frente na forma de letras, eu crio outras imagens. Nessas horas não tem como me concentrar, pois sei que com tanta criação na cabeça não vou apreender tudo aquilo que o escritor codificou naquelas frases. É certo que mesmo que minha mente estivesse completamente vazia – algo impraticável – ainda assim eu não conseguiria captar tudo o que o autor pensou ao escrever, até porque ele mesmo quando escreve tem que ser muito preciso, para que as pessoas ao lerem saibam exatamente o que ele quis dizer... mas ainda assim é impossível o transplante exato das informações, porque até eles mesmos não têm noção de algumas conclusões a que se pode chegar na reflexão de seu próprio pensamento...Nessas horas, então, ponho-me a escrever... solto tudo o que outrora preenchera meus pensamentos na tentativa de esvaziar minha mente, e, só assim conseguir, um pouco mais leve, me dedicar à leitura. Pausa. Vou ao encontro de Juca. Ele já me esperava ansiosamente, e se agita de alegria ao me ver. No caminho penso no que as pessoas pensam de mim – me olham e dizem pra eles mesmos: lá vai a menina com o cachorrinho, ela mal sai.. quase nunca é vista assim como está agora, com roupa de casa, chinelo, cabelo desleixado. Ela, se sente bem assim, pois a roupa é uma expressão de como ela se sente por dentro, ali, andando por aquelas ruas, em casa. Finalmente esse sentimento que sempre a dominara, mas que ultimamente se encontrava perdido, voltou. Na ida ao Rio ele tinha se transferido para lá... estranho como um sentimento que aqui levara 22 anos para se construir, lá teve apenas 7 dias. Então estava em casa de novo...
sábado, janeiro 13, 2007
Janaína
Janaína, ali, sentada, lambendo seus dedos incrustados de doce, dá-se conta de que finalmente descobrira o segredo da existência. O segredo era exatamente esse, permanecer ali, lambendo seus dedos incrustados. Depois de desarvorar-se procurando preencher um vazio que não tinha mais fim, que parecia um copo, que quanto mais ela enchia, mais se esvaia; descobrira a felicidade ali, lambendo aqueles dedos. Janaína já chorara ao ler Pessoa, já consumira seus dias em uma colcha de retalhos, mas lá estava seu segredo, guardadinho na geladeira há semanas, a lata de leite moça quase vazia, digo quase, pois a essência mor estava lá, a espera dos dedos de Janaína. Lembro-me que ainda durante sua infância ela mantivera fortíssimas relações com tal objeto, mas claro, ainda sem extrair-lhe o segredo. Sonhara sim com aquela moça de lata na cabeça, que lá, sapateava rodeada de passarinhos azuis e cantantes. A verdade mesmo é que Janaína tentava enganar-se com tais devaneios, pensava que se permanecesse assim, pensando essas bobagens conseguiria encobrir seus pensamentos que haviam lhe afligido durante toda a semana, mas ela sabia bem que enquanto metade de seu pensamento pensava essas coisas, a outra metade pensava bem era naquilo que ela queria esquecer, ou até mesmo se preocupava em esquecer, mantendo assim a lembrança. E lá estava aquele martelinho, tun, tun, tun. Não havia filme que passasse, nem livro que lesse, aquilo parecia ser mais importante, e não ia embora. E ela, já desesperançada de conseguir esquecer, tentava então entender o porquê de não conseguí-lo, talvez assim, quando a cabeça conseguisse convencer o coração, estaria enfim, livre. Não sabia Antônia, que era também Janaína, Janaína Antônia, que essa era a causa de todas as suas perturbações, sempre, qualquer que fosse o seu conflito, ela recaía sem perceber nessa fraqueza, não conseguir racionalizar tudo, assim seria tão mais fácil viver... Ela não dava confiança àquelas coisas que diziam vir do coração, paixão? Não acreditava mesmo. Afinal, tudo era muito simples, só se apaixonaria por quem também chorasse ao ler Pessoa, ou por aqueles que em segredo desempenhavam uma atividade que ela tanto admirava, aquela mesmo, de correr os campos. Mas não adiantava ser uma corridinha rápida, fugindo da chuva, apressado para o trabalho. Não. Antônia queria era que a pessoa sentisse a brisa por entre sua roupa ao correr, quem sabe até desse um gritinho de felicidade e abrisse os braços para sentir o vento. Esse sim, era racionalmente, o cara por que iria se apaixonar. Estava decidido. Enquanto isso, estava muito satisfeita, a comer seu pirulito de cera na porta de casa e a brincar com o afilhado na rua correndo e empurrando o triciclo da criança.
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