Retiro logo: paz, encontro, leveza. Ir com Caio ouvindo Rômulo Fróes, sendo alegre. Caio desperta a alegria dentro de mim. Felicidade.
Alexandre fala tim tim por tim tim do meu trabalho, passo a enxergar um trabalho ali, fico feliz.
Têm ratos no sofá, temor.
Será que sou muito açucarada? Devo ser. O açúcar me atrai mesmo. Fazer o quê? Na próxima encarnação venho como menina má, nessa não. Mas também não sou lá nenhuma flor, só engano.
Ele me desperta a escrita, gosto de conversar com ele. Mas não posso mais. Aí volto a conversar comigo mesma. Será que sinto o mesmo prazer? Tento.
Medo de se entregar, medo de se magoar. Mas vontade, de se apaixonar.
Trombone com pianinho, trombone com pianinho
Será que vai dar tudo certo? Nunca tudo está certo, nem nunca ficará. Mas agora até que está.
Ele não foi, ele não foi. Agora não quero mais saber. Ele sabe se cuidar, ou não.
Praia, água, música, vento, beijo. Huuum.
Dançar, rodopiar, sentir o vento bater no rosto, o cabelo voar sem se preocupar.
Vida.
Vida.
É.
terça-feira, fevereiro 28, 2012
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Será que as luzes que se acendem nas janelas acendem por dentro também das pessoas?
O que se acendia em Antônia era o seu desejo de, finalmente, comprar um colchão novo.Em Janaína, brotava um desejo de encontrar um amor. Já em Antônio, nascia uma luzinha que ele não sabia bem explicar o que era... parecia um vaga-lume. Ela piscava igualzinho aos pisca-piscas que ele tanto via nessa época do ano. Piscava sempre que ele tinha uma descoberta. Outro dia foi quando ele viu uma formiguinha andar na grama carregando um pedaço de comida, ele ficou tão surpreso, como ia caber aquilo tudo no bucho dela? Teve outro dia também que a luzinha se acendeu quando ele viu uma borboleta voar. Ele ficou reparando em todas as cores que, de repente, surgiam nas asas dela. Achou muito bonito de ver. Mas a luz piscou mesmo foi quando ele viu, furtivamente, a calcinha de Júlia naquele dia ensolarado. Achou linda, ficava imaginando sentir o tecido de algodão em sua pele...
E assim a vida ia seguindo, cada um com sua luzinha: Juca, quando ganhava um osso; Zeca, com um prato de leite; a mosca, com o pão da padaria, o mosquito, com o sangue da perna da moça, o passarinho com a minhoca, a minhoca com a terra... E assim se cumpria o ciclo da vida. Num era Natal nem nada, era só a vida seguindo, e as luzinhas apagando e acendendo, apagando e acendendo...
O que se acendia em Antônia era o seu desejo de, finalmente, comprar um colchão novo.Em Janaína, brotava um desejo de encontrar um amor. Já em Antônio, nascia uma luzinha que ele não sabia bem explicar o que era... parecia um vaga-lume. Ela piscava igualzinho aos pisca-piscas que ele tanto via nessa época do ano. Piscava sempre que ele tinha uma descoberta. Outro dia foi quando ele viu uma formiguinha andar na grama carregando um pedaço de comida, ele ficou tão surpreso, como ia caber aquilo tudo no bucho dela? Teve outro dia também que a luzinha se acendeu quando ele viu uma borboleta voar. Ele ficou reparando em todas as cores que, de repente, surgiam nas asas dela. Achou muito bonito de ver. Mas a luz piscou mesmo foi quando ele viu, furtivamente, a calcinha de Júlia naquele dia ensolarado. Achou linda, ficava imaginando sentir o tecido de algodão em sua pele...
E assim a vida ia seguindo, cada um com sua luzinha: Juca, quando ganhava um osso; Zeca, com um prato de leite; a mosca, com o pão da padaria, o mosquito, com o sangue da perna da moça, o passarinho com a minhoca, a minhoca com a terra... E assim se cumpria o ciclo da vida. Num era Natal nem nada, era só a vida seguindo, e as luzinhas apagando e acendendo, apagando e acendendo...
sábado, setembro 03, 2011
Preciso ir gritar numa floresta,
tomar coalhada numa fazenda que não existe mais,
deitar num céu calmo,
sentir as estrelas fazerem sua sombra em mim, tocá-las, senti-las entrando no meu corpo.
Preciso me sacudir,
vomitar as estrelas depois pra me sentir limpa e luminosa,
pra só então sentar numa calçada e coçar a cabeça de um gato
e as estrelas voltarem a sair das minhas mãos outra vez.
tomar coalhada numa fazenda que não existe mais,
deitar num céu calmo,
sentir as estrelas fazerem sua sombra em mim, tocá-las, senti-las entrando no meu corpo.
Preciso me sacudir,
vomitar as estrelas depois pra me sentir limpa e luminosa,
pra só então sentar numa calçada e coçar a cabeça de um gato
e as estrelas voltarem a sair das minhas mãos outra vez.
terça-feira, novembro 23, 2010
Janaína escutou uma amiga dizer uma frase que muito lhe fez rir, disse ela "cansei de ser profunda". Ela se riu porque há muito tinha tomado a mesma decisão, desistiu da carreira acadêmica, das discussões filosóficas, das buscas pelo sentido último de todas as coisas e decidiu que não queria mais fazer outra coisa senão sentar-se em seu quintal e bordar. Vez por outra, alisar a cabeça da sua gatinha aqui, escutar um canto de passarinho acolá e nada mais. Tinha cansado de buscar explicações pra entender seus sentimentos, autoconhecimento, o quê? Ela se conhecia muito bem e sabia que quem ficava procurando isso estava na verdade era inventando sempre um eu diferente, criando eus eternamente. Quanto mais ficavam a questionar o que sentiam, indo pra milhões de terapeutas, estavam era criando sentimentos e inventando sofrimentos sem fim. Ela passou tanto por isso que cansou. Agora tudo era muito simples, o caminhão do lixo passava na hora certa, o leiteiro também, a flor que ela tinha plantando com carinho nascia quando tinha que nascer, tudo estava certo. Agora entendia o que os poetas queriam dizer quando falavam na simplicidade. Era isso sim, a vida era muito fácil de viver, esses filósofos é que teimam em complicar. Então fico com os poetas.
sábado, julho 03, 2010
Clarice gostava dos acentos, achava eles dignos. Sempre que escrevia com a caneta de tinta que seu pai lhe dera, sentia um prazer enorme em colocá-los. Como o sentem certos velhos ao assinar o contrato de compra de seu caixão, marrom, de estofado de veludo vinho, com um crucifixo dourado brilhante na frente. Enroscam um pouco o bigode grisalho e emitem um sorriso de canto de boca que suas netas sabem bem, trata-se de orgulho. Não, não iam viver suas vidas no sofá da casa de sua filha mais velha, economizando sua aposentadoria, pra acabar num caixão qualquer pago por aquela que lhe sustentou nos últimos anos. Assim, Clarice passava as tardes, escrevendo, falando de amores. Ela se sentia uma típica mulher, todas elas gostam de falar de amor. Acho que quando Deus inventou a mulher foi justamente pra acrescentar o elemento amor na vida. Aí veio o homem, pra trazer um pouco de distúrbio pra esse sentimento.Era bem isso que Clarice pensava quando se lembrava do romance recente do seu cachorro Juca com a cachorra da vizinha, que estava no cio. Dava dó ver o cachorro esmolando um pouco de amor, passando noites insone, a uivar, a latir. Qual não era sua felicidade quando via ao menos a patinha de Doralice pela fresta da porta. Sacodia o rabinho feliz, e passava ao menos essa tarde com um risinho no rosto. Clarice dizia isso, mas no fundo não falava de Juca, mas dela própria, afinal era só levar Juca pra passear no parque pra ele esquecer Doralice, balançava o rabinho, levantava a patinha em cada banco, corria feliz, latia para as crianças. Assim, aquilo que Clarice achava de Juca estava impregnado era na sua percepção das coisas. Via Juca pela sua própria lente distorcida. Mas ela não sabia disso. Então deixa ela se enganar, pelo menos ela não sofre pelo seu próprio amor, sofre apenas de pena do cachorro. E continuava ela, arrumando maneiras de trazer pequenas felicidades para o cão, para que ele esquecesse sua dor, fazendo assim, sem saber, ela própria esquecer da sua. Juca sabia disso tudo e maliciosamente, para que a dona lhe ajudasse, fingia estar amando, quando na verdade queria apenas trepar com a cachorra que ele achava uma bela de uma gostosa.
quinta-feira, junho 24, 2010
Pra eles
Para Sandokan:
Ele chegou caladinho caladinho, num sabia nem onde colocar as mãos, todo acabrunhado. Num sabia ele, mas dentro dele tinha uma sementinha, que era só levar um pouquinho de sol começava a crescer e crescer até que não conseguisse ficar dentro dele e saísse.
Um dia ele encontrou um objeto e se identificou muito com ele, era fechadinho, mas se a gente apertasse num botãozinho o que tava dentro saía e era muito bonito. Esse aparelho tinha um olho grande e tinha mania de engolir as coisas bonitas e transformá-las num papel.
Quando Sandokan descobriu esse segredo foi no mesmo dia que a semente tinha germinado tanto dentro dele que, ele próprio conseguiu transformar em papéis tudo aquilo que ele sentia e que tava preso. Agora ele num era mais calado, nem acabrunhado, ele começou a falar pra todo mundo daquela beleza que ele via nas coisas.
Para Monick e Nielly:
Um dia eu tava andando pelo Coque e quando reparei tinham duas florzinhas nascendo, iguaizinhas, só que uma era vermelha e a outra amarela. A vermelha era Monick. Flor-mulher, séria e firme, quer e consegue. Ela tem as pétalas de veludo e um miolo cheio de amor. A amarela era Nielly, eita flor doida danada!! Ela é tão espevitada que as vezes a gente num percebe que ela ta ali fazendo toda aquela festa, mas que também tem muito amor guardado. Suas pétalas são amarelo brilhante que dói no olho só de ver. Amo as duas no mesmo vasinho do meu coração, elas tão lá, uma do ladinho da outra, lindas. E hoje, mais uma pétala nasce pras duas. Desejo que uma água muito pura regue vocês todos os dias e um sol muito forte dê muita energia pra vocês continuarem crescendo assim.
Para Jô:
Quando eu encontrei pela primeira vez com Jô ela tava toda encolhidinha, encostada numa pedra. Eu vi tanta fragilidade naquela menininha, que não tinha nem 10 anos ainda. Mas eu podia ver também uma doçura imensa, que só podia sair de um coração bom. Aproximei-me da criança e lhe contei todas as histórias que eu podia lembrar, as aventuras mais incríveis, os romances mais tórridos. Ela adorava, viajava junto, sonhava, dava tantas gargalhadas. Mas cada vez que se lembrava de sua tristeza caía no choro outra vez.
Então mudei de tática, pedi que ela me contasse qual o motivo de suas lágrimas. Só que Jô não sabia me dizer. Ela sabia apenas que se tratava de algo que doía muito seu coração, que mexia lá fundo. Ela me disse que antes sabia sim qual era o motivo, mas que depois de ouvir tantas histórias, tinha esquecido. Não conseguia mais lembrar, por mais que se esforçasse. Então eu disse, mas Jô, será que o teu coração está doendo mesmo? Isso já aconteceu comigo uma vez quando eu era da tua idade. Eu tava sentindo uma tristeza muito grande e não sabia o que era, só sabia que alguma coisa lá dentro mexia muito, me deixava inquieta. Contei a minha mãe. Ela riu e me explicou: “Filha, isso se trata do amor. O amor é como uma lagarta. Você já viu a transformação que a lagarta passa pra se transformar em borboleta?”. Quando minha mãe disse isso eu sorri. Achei engraçado pensar que ia nascer uma borboleta no meu coração batendo as asinhas. Ai comecei a imaginar de que cor eu queria a minha borboleta. Ela ia ser muito bonita, muito vistosa, chega ia doer o olho de ver a luminosidade dela. E foi assim que eu esqueci a dor que eu tava sentindo. Esqueci da dor da transformação da lagarta que queria se tornar borboleta, e fiquei alegre de pensar no futuro, de saber que eu tenho uma borboletinha dentro de mim querendo bater asas. Esse foi um ensinamento que eu guardo até hoje. Sempre que meu coração está doendo eu me tranqüilizo, porque hoje eu sei que é só uma fase, que logo a borboleta dentro de mim vai voltar a voar.
Quando terminei de contar isso a Jô olhei e ela tinha adormecido. Mas dormia sorrindo, com certeza sonhando com sua borboleta. Notei que saía dela uma luz rosa muito pura, era a luz do amor se purificando. Então fui embora tranqüila. Sabia que quando Jô acordasse a dor teria ido embora, ela nem mais se lembraria dela. Então ela voltaria a ser a criança serena de antes, que colhia flores coloridas todos os dias no jardim pra dar a sua mãe e que brincava alegre com o irmão rolando no chão de tanto rir.
Ele chegou caladinho caladinho, num sabia nem onde colocar as mãos, todo acabrunhado. Num sabia ele, mas dentro dele tinha uma sementinha, que era só levar um pouquinho de sol começava a crescer e crescer até que não conseguisse ficar dentro dele e saísse.
Um dia ele encontrou um objeto e se identificou muito com ele, era fechadinho, mas se a gente apertasse num botãozinho o que tava dentro saía e era muito bonito. Esse aparelho tinha um olho grande e tinha mania de engolir as coisas bonitas e transformá-las num papel.
Quando Sandokan descobriu esse segredo foi no mesmo dia que a semente tinha germinado tanto dentro dele que, ele próprio conseguiu transformar em papéis tudo aquilo que ele sentia e que tava preso. Agora ele num era mais calado, nem acabrunhado, ele começou a falar pra todo mundo daquela beleza que ele via nas coisas.
Para Monick e Nielly:
Um dia eu tava andando pelo Coque e quando reparei tinham duas florzinhas nascendo, iguaizinhas, só que uma era vermelha e a outra amarela. A vermelha era Monick. Flor-mulher, séria e firme, quer e consegue. Ela tem as pétalas de veludo e um miolo cheio de amor. A amarela era Nielly, eita flor doida danada!! Ela é tão espevitada que as vezes a gente num percebe que ela ta ali fazendo toda aquela festa, mas que também tem muito amor guardado. Suas pétalas são amarelo brilhante que dói no olho só de ver. Amo as duas no mesmo vasinho do meu coração, elas tão lá, uma do ladinho da outra, lindas. E hoje, mais uma pétala nasce pras duas. Desejo que uma água muito pura regue vocês todos os dias e um sol muito forte dê muita energia pra vocês continuarem crescendo assim.
Para Jô:
Quando eu encontrei pela primeira vez com Jô ela tava toda encolhidinha, encostada numa pedra. Eu vi tanta fragilidade naquela menininha, que não tinha nem 10 anos ainda. Mas eu podia ver também uma doçura imensa, que só podia sair de um coração bom. Aproximei-me da criança e lhe contei todas as histórias que eu podia lembrar, as aventuras mais incríveis, os romances mais tórridos. Ela adorava, viajava junto, sonhava, dava tantas gargalhadas. Mas cada vez que se lembrava de sua tristeza caía no choro outra vez.
Então mudei de tática, pedi que ela me contasse qual o motivo de suas lágrimas. Só que Jô não sabia me dizer. Ela sabia apenas que se tratava de algo que doía muito seu coração, que mexia lá fundo. Ela me disse que antes sabia sim qual era o motivo, mas que depois de ouvir tantas histórias, tinha esquecido. Não conseguia mais lembrar, por mais que se esforçasse. Então eu disse, mas Jô, será que o teu coração está doendo mesmo? Isso já aconteceu comigo uma vez quando eu era da tua idade. Eu tava sentindo uma tristeza muito grande e não sabia o que era, só sabia que alguma coisa lá dentro mexia muito, me deixava inquieta. Contei a minha mãe. Ela riu e me explicou: “Filha, isso se trata do amor. O amor é como uma lagarta. Você já viu a transformação que a lagarta passa pra se transformar em borboleta?”. Quando minha mãe disse isso eu sorri. Achei engraçado pensar que ia nascer uma borboleta no meu coração batendo as asinhas. Ai comecei a imaginar de que cor eu queria a minha borboleta. Ela ia ser muito bonita, muito vistosa, chega ia doer o olho de ver a luminosidade dela. E foi assim que eu esqueci a dor que eu tava sentindo. Esqueci da dor da transformação da lagarta que queria se tornar borboleta, e fiquei alegre de pensar no futuro, de saber que eu tenho uma borboletinha dentro de mim querendo bater asas. Esse foi um ensinamento que eu guardo até hoje. Sempre que meu coração está doendo eu me tranqüilizo, porque hoje eu sei que é só uma fase, que logo a borboleta dentro de mim vai voltar a voar.
Quando terminei de contar isso a Jô olhei e ela tinha adormecido. Mas dormia sorrindo, com certeza sonhando com sua borboleta. Notei que saía dela uma luz rosa muito pura, era a luz do amor se purificando. Então fui embora tranqüila. Sabia que quando Jô acordasse a dor teria ido embora, ela nem mais se lembraria dela. Então ela voltaria a ser a criança serena de antes, que colhia flores coloridas todos os dias no jardim pra dar a sua mãe e que brincava alegre com o irmão rolando no chão de tanto rir.
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