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quarta-feira, maio 23, 2012
A menina cabocla
Num dia lindo de outono, Maria das Graças acordou e descobriu que estava grávida. Como ela sabia? Ela começou a sentir algo muito profundo dentro dela, não sabia o que era direito, só que era algo muito forte, que penetrava lá dentro, assim como faz o som dos violinos. Ela se levantou de súbito da cama, sacodiu Artur, que dormia ao seu lado: "Artur, Artur, acorda, Roberta nasceu aqui dentro de mim". Fazia um tempo que o casal queria ter mais uma menina pra embelezar a casa. Foi dito e feito. Quando Roberta nasceu,em fevereiro, todo mundo quis ver o bebê na maternidade. Era de espantar o sorriso luminoso que a menina tinha. Ela era morena, dos olhos fortes, iguaizinhos aos da avó cabocla dela. Roberta tinha uma coisa diferente, mas ninguém sabia explicar direito o que era.
A menina foi crescendo.. O passeio que ela mais gostava de fazer era ir pro Sertão, parece que aquela terra laranja era da mesma matéria de sua pele, seca e forte. E assim mesmo era Roberta. Chorar? Chorava nada. Podiam fazer o que quisessem com ela, ela ficava lá, braba toda, incólume. Ela aprendeu com as terras de sua vó, que sustentavam aquele cacto todo o tempo, quando dava uma chuvinha pequenininha, era tudo ficando verde. Foi naquela terra rachada que Roberta aprendeu a viver, economizava o choro, igual que nem o Sertão economizava água. Sua vó até tentava lhe explicar, "Mas, Roberta, Deus num tá economizando não minha filha, o problema é que os vaqueiros num tão cantando direito, eles tem que cantar sete vezes em cima lá da serra "Ôoooe", pra avisar a Deus que ele pode mandar derrubar o aguaçeiro". Roberta fingia que acreditava, mas ela sabia que na verdade o Sertão era igual a ela, num chorava porque era forte!
Mas num era só essa a característica da menina não, o que fazia de Roberta uma menina diferente, e que fez Dona Graça sentir desde que a menininha era semente dentro dela, era na verdade a mistura dessa força com uma bondade muito grande. Desde pequena Roberta num podia ver ninguém precisando de ajuda no meio da rua, sempre dava um jeito de fazer alguma coisa. Um vez tava na praia e viu um menininho negrinho todo triste. Aí Roberta chegou perto e perguntou o que ele tinha. O menino tinha pego o único dinheirinho que tinha e tinha comprado picolé pra vender na praia, mas foi jogar futebol e esqueceu de vender.. resultado, o picolé virou suco.. O que foi que ela fez? "Oxe, mas eu adoro suco de picolé, é meu preferido! Foi lá e comprou tudinho, e ainda bebeu, era morango, misturado com chocolate, com coco, pense num suco bom!". Mas o que Roberta quase morria se visse era bichinho abandonado. Pense que ela ficava triste! O sonho dela era ter uma casa gigante, cheia de bichinho que ela pegasse na rua.
Quando Roberta cresceu, num tinha ninguém mais estudiosa que ela no colégio, "eita menina danada", organizada, então! Ela só num gostava de namorado: "Esses trê lê lê prá cá e pra lá né comigo não!. Eu só vou é casar quando encontrar um homem que preste!". E assim foi.. Um belo dia tava Roberta sentada na frente da biblioteca, lendo pras crianças que tinham por lá, aí aparece um moço, bonito que só Harry Potter, ela olhou assim por detrás daqueles óculos.. Ele olhou assim pros olhos de cabocla dela.. Foi paixão na certa. No outro dia já tavam marcando o casamento. Levaram o cachorro, meia duzia de gato e foram simbora. Felizes estavam , felizes ficaram. Todo dia a família aumentava, era um bichinho que Marcelo trazia pra casa. Dia desses ele trouxe uma família inteira de gato. Tinha visto primeiro o filhinho, ficou com pena do coitado, era orfão. Mas daqui a pouco chega a mãe, tava com a patinha machucada, bichinha. E o pai então!? Tava magrinho, magrinho. Ele já tava pronto pra ir embora, quando vê aparece o resto dos filhotinhos, ele num ia deixar sete orfãos, num é? Aí pronto, teve que levar todos. Foi assim que Marcelo explicou a Roberta quando chegou em casa.
Quando Roberta cresceu e ficou bem grande, ela começou a ficar triste porque a mãe dela, aquela mesma que tinha dado a vida a ela, tinha virado estrela. "Mas Roberta - diz sua vó cabloca - ser estrela é a maior sorte que a pessoa pode ter. Você sabia que a luz que as estrelas tem, servem pra iluminar a gente tudinho aqui na terra? Mas num é iluminar só de luz não, minha filha, é de energia também. Sua mãe quis ser estrela pra ajudar muita gente. Você num fique triste não, que a estrela também tá brilhando em você. Dentro do seu coração minha filha, tem uma estrela tão forte, que você num sabe, mas a gente, da linhagem das cabloca tem essa missão, viu? A gente nasceu foi pra trazer luz pro povo daqui. Então chore, chore tudo que você num chorou nesse tempo todinho,e deixe as terra do nosso sertão bem verdinha, que é pra florir bem muito. Mas depois, minha filha, você tem que voltar com aquele sorriso luminoso que só você tem. Sua mãe tá bem, num se preocupe não. Vá cuidar dos seus bichinhos, vá". Aí Roberta ficou melhor, chorou, chorou, regou as plantas tudinho, e toda noite ela olha pro céu pra matar a saudade da mãe-estrela.
Miaaaau, miaaaaau (diz a família dos gatinhos )
Ôooooe, Ôooooe (fazem os vaqueiros no Sertão)
quinta-feira, junho 24, 2010
Pra eles
Para Sandokan:
Ele chegou caladinho caladinho, num sabia nem onde colocar as mãos, todo acabrunhado. Num sabia ele, mas dentro dele tinha uma sementinha, que era só levar um pouquinho de sol começava a crescer e crescer até que não conseguisse ficar dentro dele e saísse.
Um dia ele encontrou um objeto e se identificou muito com ele, era fechadinho, mas se a gente apertasse num botãozinho o que tava dentro saía e era muito bonito. Esse aparelho tinha um olho grande e tinha mania de engolir as coisas bonitas e transformá-las num papel.
Quando Sandokan descobriu esse segredo foi no mesmo dia que a semente tinha germinado tanto dentro dele que, ele próprio conseguiu transformar em papéis tudo aquilo que ele sentia e que tava preso. Agora ele num era mais calado, nem acabrunhado, ele começou a falar pra todo mundo daquela beleza que ele via nas coisas.
Para Monick e Nielly:
Um dia eu tava andando pelo Coque e quando reparei tinham duas florzinhas nascendo, iguaizinhas, só que uma era vermelha e a outra amarela. A vermelha era Monick. Flor-mulher, séria e firme, quer e consegue. Ela tem as pétalas de veludo e um miolo cheio de amor. A amarela era Nielly, eita flor doida danada!! Ela é tão espevitada que as vezes a gente num percebe que ela ta ali fazendo toda aquela festa, mas que também tem muito amor guardado. Suas pétalas são amarelo brilhante que dói no olho só de ver. Amo as duas no mesmo vasinho do meu coração, elas tão lá, uma do ladinho da outra, lindas. E hoje, mais uma pétala nasce pras duas. Desejo que uma água muito pura regue vocês todos os dias e um sol muito forte dê muita energia pra vocês continuarem crescendo assim.
Para Jô:
Quando eu encontrei pela primeira vez com Jô ela tava toda encolhidinha, encostada numa pedra. Eu vi tanta fragilidade naquela menininha, que não tinha nem 10 anos ainda. Mas eu podia ver também uma doçura imensa, que só podia sair de um coração bom. Aproximei-me da criança e lhe contei todas as histórias que eu podia lembrar, as aventuras mais incríveis, os romances mais tórridos. Ela adorava, viajava junto, sonhava, dava tantas gargalhadas. Mas cada vez que se lembrava de sua tristeza caía no choro outra vez.
Então mudei de tática, pedi que ela me contasse qual o motivo de suas lágrimas. Só que Jô não sabia me dizer. Ela sabia apenas que se tratava de algo que doía muito seu coração, que mexia lá fundo. Ela me disse que antes sabia sim qual era o motivo, mas que depois de ouvir tantas histórias, tinha esquecido. Não conseguia mais lembrar, por mais que se esforçasse. Então eu disse, mas Jô, será que o teu coração está doendo mesmo? Isso já aconteceu comigo uma vez quando eu era da tua idade. Eu tava sentindo uma tristeza muito grande e não sabia o que era, só sabia que alguma coisa lá dentro mexia muito, me deixava inquieta. Contei a minha mãe. Ela riu e me explicou: “Filha, isso se trata do amor. O amor é como uma lagarta. Você já viu a transformação que a lagarta passa pra se transformar em borboleta?”. Quando minha mãe disse isso eu sorri. Achei engraçado pensar que ia nascer uma borboleta no meu coração batendo as asinhas. Ai comecei a imaginar de que cor eu queria a minha borboleta. Ela ia ser muito bonita, muito vistosa, chega ia doer o olho de ver a luminosidade dela. E foi assim que eu esqueci a dor que eu tava sentindo. Esqueci da dor da transformação da lagarta que queria se tornar borboleta, e fiquei alegre de pensar no futuro, de saber que eu tenho uma borboletinha dentro de mim querendo bater asas. Esse foi um ensinamento que eu guardo até hoje. Sempre que meu coração está doendo eu me tranqüilizo, porque hoje eu sei que é só uma fase, que logo a borboleta dentro de mim vai voltar a voar.
Quando terminei de contar isso a Jô olhei e ela tinha adormecido. Mas dormia sorrindo, com certeza sonhando com sua borboleta. Notei que saía dela uma luz rosa muito pura, era a luz do amor se purificando. Então fui embora tranqüila. Sabia que quando Jô acordasse a dor teria ido embora, ela nem mais se lembraria dela. Então ela voltaria a ser a criança serena de antes, que colhia flores coloridas todos os dias no jardim pra dar a sua mãe e que brincava alegre com o irmão rolando no chão de tanto rir.
Ele chegou caladinho caladinho, num sabia nem onde colocar as mãos, todo acabrunhado. Num sabia ele, mas dentro dele tinha uma sementinha, que era só levar um pouquinho de sol começava a crescer e crescer até que não conseguisse ficar dentro dele e saísse.
Um dia ele encontrou um objeto e se identificou muito com ele, era fechadinho, mas se a gente apertasse num botãozinho o que tava dentro saía e era muito bonito. Esse aparelho tinha um olho grande e tinha mania de engolir as coisas bonitas e transformá-las num papel.
Quando Sandokan descobriu esse segredo foi no mesmo dia que a semente tinha germinado tanto dentro dele que, ele próprio conseguiu transformar em papéis tudo aquilo que ele sentia e que tava preso. Agora ele num era mais calado, nem acabrunhado, ele começou a falar pra todo mundo daquela beleza que ele via nas coisas.
Para Monick e Nielly:
Um dia eu tava andando pelo Coque e quando reparei tinham duas florzinhas nascendo, iguaizinhas, só que uma era vermelha e a outra amarela. A vermelha era Monick. Flor-mulher, séria e firme, quer e consegue. Ela tem as pétalas de veludo e um miolo cheio de amor. A amarela era Nielly, eita flor doida danada!! Ela é tão espevitada que as vezes a gente num percebe que ela ta ali fazendo toda aquela festa, mas que também tem muito amor guardado. Suas pétalas são amarelo brilhante que dói no olho só de ver. Amo as duas no mesmo vasinho do meu coração, elas tão lá, uma do ladinho da outra, lindas. E hoje, mais uma pétala nasce pras duas. Desejo que uma água muito pura regue vocês todos os dias e um sol muito forte dê muita energia pra vocês continuarem crescendo assim.
Para Jô:
Quando eu encontrei pela primeira vez com Jô ela tava toda encolhidinha, encostada numa pedra. Eu vi tanta fragilidade naquela menininha, que não tinha nem 10 anos ainda. Mas eu podia ver também uma doçura imensa, que só podia sair de um coração bom. Aproximei-me da criança e lhe contei todas as histórias que eu podia lembrar, as aventuras mais incríveis, os romances mais tórridos. Ela adorava, viajava junto, sonhava, dava tantas gargalhadas. Mas cada vez que se lembrava de sua tristeza caía no choro outra vez.
Então mudei de tática, pedi que ela me contasse qual o motivo de suas lágrimas. Só que Jô não sabia me dizer. Ela sabia apenas que se tratava de algo que doía muito seu coração, que mexia lá fundo. Ela me disse que antes sabia sim qual era o motivo, mas que depois de ouvir tantas histórias, tinha esquecido. Não conseguia mais lembrar, por mais que se esforçasse. Então eu disse, mas Jô, será que o teu coração está doendo mesmo? Isso já aconteceu comigo uma vez quando eu era da tua idade. Eu tava sentindo uma tristeza muito grande e não sabia o que era, só sabia que alguma coisa lá dentro mexia muito, me deixava inquieta. Contei a minha mãe. Ela riu e me explicou: “Filha, isso se trata do amor. O amor é como uma lagarta. Você já viu a transformação que a lagarta passa pra se transformar em borboleta?”. Quando minha mãe disse isso eu sorri. Achei engraçado pensar que ia nascer uma borboleta no meu coração batendo as asinhas. Ai comecei a imaginar de que cor eu queria a minha borboleta. Ela ia ser muito bonita, muito vistosa, chega ia doer o olho de ver a luminosidade dela. E foi assim que eu esqueci a dor que eu tava sentindo. Esqueci da dor da transformação da lagarta que queria se tornar borboleta, e fiquei alegre de pensar no futuro, de saber que eu tenho uma borboletinha dentro de mim querendo bater asas. Esse foi um ensinamento que eu guardo até hoje. Sempre que meu coração está doendo eu me tranqüilizo, porque hoje eu sei que é só uma fase, que logo a borboleta dentro de mim vai voltar a voar.
Quando terminei de contar isso a Jô olhei e ela tinha adormecido. Mas dormia sorrindo, com certeza sonhando com sua borboleta. Notei que saía dela uma luz rosa muito pura, era a luz do amor se purificando. Então fui embora tranqüila. Sabia que quando Jô acordasse a dor teria ido embora, ela nem mais se lembraria dela. Então ela voltaria a ser a criança serena de antes, que colhia flores coloridas todos os dias no jardim pra dar a sua mãe e que brincava alegre com o irmão rolando no chão de tanto rir.
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Historinhas de dentro
domingo, setembro 13, 2009
O encanto de Val

Um dia Helena estava lavando os pratos, cantarolando baixinho, quando olhou pela janela viu que no jardim tinha nascido uma florzinha lilás. Ela nunca tinha visto flor igual, era pequena e tinha as pétalas bem delicadas, era só encostar um pouquinho o dedo pra sentir a maciez. Foi nessa hora que Helena soube que estava esperando Val. Ela sempre teve certeza que quando brotasse uma sementinha dentro dela, ela receberia algum sinal. E foi assim.
À medida que Helena sentia a criança crescer dentro dela, ela sentia uma força tão grande de viver! Aquele bebê era a maior força vital que ela já havia sentido. Não havia maneira de ser mais feliz. Não imaginava ela o que sentiria quando Val nascesse, ela tinha até medo desse momento, medo de não poder mais abrigar seu filhotinho de todos os perigos. Nessas horas se sentia mesmo como aquela galinha mãe, que quer os pintinhos debaixo das asas. E mais do que isso, ela não conseguia pensar em como seria viver só, a partir de então, como não abrigar mais o outro ser dentro de si, como tornar-se independente de novo...
Mas, quando Val nasceu, Helena e Pacheco, seu marido, descobriram que a felicidade ainda podia ser maior do que aquilo que sentiram nos nove meses de gestação. Ela se expandia dentro deles cada vez que olhavam praqueles olhinhos puxadinhos e bochechinhas salientes. Cada gritinho que a menina dava fazia essa imensidão de amor crescer mais e mais.
E foi na terra fértil desse amor tão grande que Val foi gerada. E como não podia ser diferente, esse amor também fazia parte do próprio ser da menina. Ela não conseguia viver sem amar, pra ela as duas palavras eram sinônimos. Assim, quando Val estava brincando com suas panelinhas no quintal, cozinhando pra todos os bichinhos que estivessem por perto, ela queria mesmo era fazer todos eles felizes. Ficava toda alegre ao imaginar que a lagarta tinha engordado muitas gramas com a sopa de papoula que ela tinha preparado. E o sapo então? Tava gordinho, gordinho de tanto beber suco de folha amassada! Também achava linda a chuva, se emocionava com os pingos caindo na terra, fazendo as florzinhas crescerem robustas.
Ela sempre queria dar um jeitinho de ajudar a natureza a seguir seu rumo que ela tanto admirava. Assim, quando descobriu que as abelhas produziam o mel do néctar que retiravam das flores, tratou de plantar muitas delas. Todos os dias plantava uma de cor diferente, porque, para ela, as abelhas seriam muito mais felizes produzindo mel de tonalidades diferentes. Outra vez ela até roubou os sapatinhos de sua boneca, e queria porque queria, calçar a centopéia. Imaginava como devia ser tão difícil andar com tantos pés por aí descalça.. e se ela pegasse uma gripe?
Val era bem quietinha e observadora. Ela não sabia, mas guardava em seus cachinhos aquilo que ia recolhendo das pessoas. Um jeito especial de um falar, a risada singular de outro, a maneira de andar e gesticular de outro. Tudo que Val percebia ficava registrado nos seus caracoizinhos. E eles cresciam mais e mais à medida que a menina ia ficando mais velha.
Um dia, Val não sabia por que, ela tinha acordado com uma sensação de vazio, algo lhe faltava. Quando viu tinha uma mechinha de seu cabelo no chão: era o jeito de dançar engraçado de uma senhora gorda que ela vira certa vez. Val ficou muito intrigada sem saber direito o que tinha feito seu cabelo cair. E todos os dias, daí por diante, o fato se repetiu. Aos poucos Val foi perdendo todos os seus cachinhos. E ao passo que os perdia, uma sensação ia tomando conta dela. Ela começou a enxergar ao mundo e a si mesma de uma maneira diferente. Se olhava no espelho e não se reconhecia mais, não sabia quem era aquela. Seu rosto estava mais afilado, seus cabelos mais estirados, o corpo tinha tomado outras formas. Não sabia mais quem era, mas, ao mesmo tempo, sentia que estava renascendo mais verdadeira, mais ela. Agora ia descobrindo sua própria maneira de ser, seus gestos, maneira de rir, de andar e de falar. Seus passos eram mais firmes. Val tinha, enfim, se tornado ela própria, tinha amadurecido.
Mas, ao contrário do que se pensa, isso não quer dizer que ela fosse deixar de ser aquela menina que cuidava com tanto afinco dos animaizinhos e plantas de seu jardim. Agora se dedicava mais ainda. Achava um absurdo tratar os outros seres com desrespeito. Só comeria plantas, e os bichinhos que criava seriam somente seus amigos. Vez por outra, se via ela, no jardim, brigando com um ou outro bicho que contrariasse a liberdade dos demais. Val se preocupava tanto com o bem estar de sua horta que quebrava a cabeça tentando equacionar a cadeia alimentar de forma que a harmonia fosse sempre restabelecida, quando a natureza assim não o fizesse sozinha. É.. os cachinhos tinham ido embora, mas a mania da menina de dar um empurrãozinho no meio ambiente continuava. Já depois de grande, as principais preocupações de Val eram como desviar um corregozinho que atrapalhava a passagem diária das formigas, como fazer com que a água da chuva regasse por igual todas as plantas. Ela tinha até criado um orfanato de insetos, cada dia achava um novo filhote solitário para cuidar. A pena maior que ela tinha era daqueles que viviam pouco naturalmente. Por esses não podia fazer nada, somente os mantras diários que ela recitava por sua morte.
Por ser assim desse jeito, o grande problema que Val tinha era o de saber como se encaixaria num mundo tão diferente dela. Ela olhava ao seu redor e não conseguia entender nada. O fato de que algumas pessoas só se movimentavam no mundo em troca de outra coisa, que não o amor, deixava a menina muito confusa. Não conseguia entender o que acontecia no mundo, porque as pessoas não se preocupavam com as outras nem com a natureza, que lhe era tão cara. Como alguém podia pisar na grama? Arrancar uma flor? Bater num gatinho? Prender um passarinho numa gaiola? Nada disso fazia o mínimo sentido para ela. E cada vez que ouvia uma notícia dessas a menina chorava tanto que enchia os reservatórios de água de que sua hortinha precisava por um mês. (Até na hora de chorar ela conseguia trazer algum benefício aos seres!).
Val passou muito tempo tentando entender o motivo dessas coisas porque para ela não era suficiente cuidar somente do seu jardim. Ela não conseguia viver em paz enquanto soubesse que outros jardins não estariam a salvo. Então, pensou num jeito de propagar suas idéias, de expandir aos quatro ventos o amor que sentia pelas coisas do mundo, mas não conseguiu pensar em nada. Foi quando Val adormeceu que uma mágica se fez. A partir de então, mesmo dormindo, Val subia na colina mais alta das redondezas e emitia os sons mais bonitos que já se tinha ouvido. Também dormindo, os homens começavam a sonhar com coisas muito belas e acordavam com vontade de calçar centopéias, ajudar formigar e abelhas. Até hoje o som de Val ecoa mesmo sem ninguém saber, mesmo sem ela própria saber. É um som que sai direto do coração dela praqueles corações mais endurecidos. E ele tem um encanto que ninguém consegue explicar nem entender, só sentir.
quarta-feira, julho 01, 2009
Pedra do Amor
Um dia a gente tava ali sentado conversando e daqui a pouco reparamos numa pedrinha ali perto. Toda vez que a gente se reunia tava a pedrinha lá, no mesmo lugar. No começo a gente achava estranho, nunca tínhamos visto pedra igual. No primeiro dia que a vi tive uma raiva danada, fui passar e tropecei nela. Depois foi Amanari quem tropeçou. A gente não entendia o que ela tava fazendo ali. O único que parecia saber o mistério da pedra era FeiJãozinho. Afinal tinha sido ele quem a tinha colocado ali. Mas, sempre que lhe perguntávamos sobre ela, ele respondia com um sorriso mais enigmático ainda.
O tempo passou e a pedra continuou lá. Mas, agora ela já tinha revelado um de seus segredos: era uma pedra mágica. Era só colocá-la na mão e fechar o punho bem apertadinho, pedir um desejo e pronto: a gente conseguia o doce mais gostoso, ou se teletransportava pra onde a gente quisesse. Aos poucos, a pedrinha ia revelando seus segredos. Descobri depois que ela era, na verdade, uma pedra-concha, se você encostasse o ouvido bem pertinho e se concentrasse, saíam dela os conselhos que você precisasse naquele momento. Saíam na forma de música, uma mistura de trompete, pífano e rabeca. E a pedra também sabia dançar! Acreditem se quiserem, mas, ao escutar qualquer som da mata, ela se lembrava de seus antepassados e dançava os folguedos mais bonitos que já se viu. Ela também tinha mania de organização, onde estivesse, o ambiente estaria com as coisas milimetricamente em seus lugares, isso até irritava um pouco às vezes.
Mas, a principal característica da pedrinha era sua ousadia. Quando descobrimos o percurso que ela tinha feito para chegar ali tomamos um susto. Ela tinha nascido numa floresta enorme, onde tudo era aparentemente perfeito, harmonioso. Ela era um dos pedaços de uma rocha que saía do mar e era gigante, tão grande que chegava a tocar o céu. Um dia veio um vento muito forte e gerou a pedrinha. Só que a partir daí ela teve que aprender a se virar sozinha, distante de sua rocha-mãe. No começo, os irmãos dela a acompanhavam. Mas, logo, a pedrinha sentiu necessidade de se separar. Ela começou a querer encontrar outro lugar, onde se sentisse em casa de verdade. Ela enxergava além dos outros seres da floresta. Percebia que faltava alguma coisa ali, algo que para ela era essencial. Mas não sabia bem o que era, só tinha certeza que seu lugar não era ali.
Foi aí que ela teve uma idéia. No dia de seu aniversário, 29 de junho, quando o sol batesse o primeiro raio na superfície dela, ela teria o direito de fazer, pela primeira vez,para si mesma, os pedidos que sempre realizara pros outros até então. Assim, quando esse dia chegou, desejou com todas as suas forças encontrar outro lugar, onde as pessoas fossem iguais a ela. Não se sabe muito bem o que aconteceu, mas o fato foi que ela não se moveu do lugar. Não aconteceu nadinha, nadinha. Então, a pedrinha ficou muito triste. Mas mesmo assim não desistiu de realizar seu sonho. Sabia que todas as quartas-feiras passava um caminhão na floresta. Ele era bonito que só, todo colorido. A pedra-concha sempre tinha ficado intrigada com aquele carro enorme que sempre ecoava uma música bonita. Aí, ela esperou a quarta-feira chegar com a maior ansiedade do mundo. E ela chegou. Quando escutou o som do caminhão se aproximando lá de longe - pois seu ouvido de concha era bem apurado -, pegou uma carona com um passarinho amigo seu e entrou nele.
Hoje a pedrinha não sabe bem se encontrou o lugar que procurava, e pode ser que ela nunca venha a saber. A única coisa que posso garantir a vocês é que ela consegue fazer muita gente feliz. Não com seus poderes mágicos de levar onde a gente quiser, de fazer aparecer pães sucos e comidas gostosas, mas, com algo que tá lá no fundo dela e que lhe deu seu sobrenome. Não contei até agora, mas o nome dela completo é Pedra do Amor. Seu pai, o vento, tinha lhe dado esse nome porque logo quando ela nasceu, ele percebeu de cara qual era o bichinho que a pedra-concha possuía lá dentro.
domingo, maio 03, 2009
Feijãozinho-planta

João é um amor que incrustou aqui dentrinho dentrinho de mim, que brilha, que faz cosquinhas e que me faz crescer também.Às vezes ele parece grande que só, parece um adulto, mas ele num é não, é criança também. Ele é uma criança louquinha, que faz "Rá" e imita cangaceiro. Mas quando é adulto diz coisas bonitas. Às vezes diz coisas que ninguém entende também, só ele.Ele é bonitinho que só, parece um feijãozinho mágico daqueles que vivem pulando. Um dia encontrei esse feijaõzinho e não quis mais que ele fosse embora não. Ele até já virou uma planta aqui dentro! Em cada galho tem um tipo de flor diferente, todas medicinais.
Tem alguma coisa que num me é estranha nessa história, um menino chamado João, que é uma semente de feijão e que vira uma planta... Parece com aquela historinha, mas nessa o menino vira ele próprio o pé de feijão e cresce é dentro das pessoas. E no que ele cresce, cada uma das flores medicinais tem o poder de curar o problema que a pessoa tiver naquele momento, é um remédio eterno pra qualquer tipo de doença! Tem uma que se chama “flor de abobrinha” que serve praquelas pessoas que são muito tristes, tem outra que o nome é “flor de chocolate”, é pras pessoas amargas, e tem uma também que é “flor de tartaruga”, que é pra acalmar... tem tantas quanta a sua imaginação puder criar. Elas são assim, brotam quando a pessoa inventa!
Mas João-feijãozinho-planta num mora só em mim não, ele mora também dentro de um bocado de gente, uma dessas pessoas é Rafa-rouxinol. Ele acorda todo dia de manhã com vontade de cantar, mas só em francês, que ele é chique. Rafa é um passarinho muito do amoroso, todo dia trás um pouquinho de alpiste pra João comer. Pena que ele num gosta de alpiste, só toma água, vive fazendo jejum. Um dia Rafa-rouxinol teve uma idéia melhor, ia trazer um pedacinho de fita vermelha que ele tinha achado por aí pra ver se João queria amarrar no galho, era um enfeite bonito que só. Só que quando Rafa tava vindo com ela no bico, veio um passarinho enxerido e roubou a fitinha. Rafa, brabo que só ele foi atrás. Ele, que sabia usar muito bem a sua voz quando queria, dessa vez desafinou de propósito. Soltou tanto grito que o passarinho de enxerido passou logo a envergonhado, soltou a fitinha e foi-se embora pra nunca mais voltar! Rafa, orgulhoso, amarrou a fitinha no galho de João e disse: “Eu quero ver alguém tirar!’
Outra que tem João-feijãozinho-planta num vasinho branco lá pertinho do coração é Yvana-pica-pau. Essa daí é tão diferente dele que ninguém sabe como os dois se entendem, só sei que se entendem, e bem que só ainda mais. Yvana aprendeu a não mais bicar as árvores alheias, em respeito a seu amigo planta, enquanto ele, aprendeu com ela a se enraizar bem no chão pra nunca cair, mesmo que venha um vento muito forte! Os dois passaram a se dar tão bem que resolveram construir uma casa pra morar juntos! Yvana andou passeando lá pelas árvores que outro João mora, o João de barro, pra aprender a arte da construção. Toda vez ela aprende um pouquinho e vai lá contar pro amigo. E assim vão indo, a casa já ta quase pronta, vai ser inaugurada daqui a pouco, Rafa ta até organizando uma cantoria com os outros rouxinóis pra o esperado dia.
A casa vai ser num lugar chamado Coque, vai ficar do lado de outra que já tem lá, pra onde João gosta de ir, ela é toda colorida e gosta de cantar muito, tem uma voz bem grossa que ecoa por todo o Coque. Essa casa parece que tem um sol dentro, que espalha o calor e o brilho pelos arredores. Por isso que João quis construir a casa dele lá perto, pra juntar as energias boas.
João-feijãozinho-planta tá no coração de tanta gente que se for contar a história de todas num vai caber nesse texto não. Então, digo só que ele ta verdinho verdinho nos corações alheios, bem florido e com um poder curador que só vendo!
terça-feira, dezembro 30, 2008
No jardim.

Num jardim não muito distante daqui mora Carol, lá pras bandas de Olinda. Ela não vive só, tudo o que faz compartilha com sua família, Elizete, sua mãe e Amanda, sua irmã.
Carol mora na frente de uma casa bem bonita, toda colorida, onde bate o ventinho do mar. Ela mora em frente à casa? Éee. Carol, sua mãe e sua irmã são três flores, que, faz algum tempo moram ali, ao lado de lagartos formigas e outros bichinhos do jardim.
São três girassóis, três flores que guiam suas vidas pelos raios do sol. Carol é forte que só vendo, venham tirar ela dali, do lado de sua família e de debaixo do sol pra ver o que acontece! Mas ela também é bem doce, perfumada e iluminada, com suas pétalas grandes, amarelas.
A felicidade maior que Carol teve foi quando Amanda derrubou uma sementinha no chão, e, não se sabe como, nasceu uma borboletinha linda, o nome dela é Juju. Juju adora pular de florzinha em florzinha e sacudir suas asinhas que ela aprendeu a pouco tempo a bater.
Elizete, o maior dos girassóis desse jardim também ficou muito encantada com o acontecido. Ela vai deixar Juju, mesmo não sendo um girassol, igualzinha às filhas, assim, fortes e radiantes. Muito da firmeza de Carol veio dela, de Elizete. Ela tem as raízes bem fincadas no chão e ensinou muito a suas filhas dos caminhos da vida.
Já Amanda ensinou a Carol como ser feliz dançando. Acredite se quiser, mas Amanda é sim um girassol dançante! Desses difíceis de achar, mas que quando encontrados deve-se dar muito valor.
Ela dança e leva todas as tristezas bem pra longe, a cada movimento seu, o ambiente, de escuro passa a ficar clarinho clarinho, tão branco que chega a doer nos olhos. Amanda também tem a habilidade de fazer tudo o que você conseguir imaginar com o papel, ela consegue imitar todos os animaizinhos e plantas do jardim com suas réplicas!
E Carol não fica por menos, mas tem uma outra mania, a de pintar. Já pintou quase todo o jardim. Lá tem árvores de todas as cores, verde, rosa, amarela. Carol também desenha florzinhas onde não tem. Chega até a confundir as abelhas coitadas!
Mas o que Carol gosta mesmo é de desenhar arco-íris. Uma vez viu um no céu e achou tão bonito todas aquelas cores juntas. Ela que tanto gostava de pintar descobriu naquele dia cores que nem imaginava que existiam.
Desde então é isso que Carol faz. Ela pede emprestado a cada flor, a cada bichinho do jardim, uma pétala, uma casquinha dos insetos quando eles as trocam, pra fazer suas tintas. E assim, ela sai por todos os cantos pintando arco-íris e dando a dimensão da beleza das cores para quanto mais gente, bicho, planta puder ver!
quarta-feira, setembro 10, 2008
Pó de Amanari

Quando Amanari nasceu ela era bochechudinha e risonha. Áurea, a boleira só faltou morrer de tanta felicidade. Seu primeiro filho era uma menina branquinha, de cabelinho preto preto. O pai, Roberto da granja disse logo ao saber que era uma menina: “Essa aí vai ser freira!”.
E Amanari foi crescendo, crescendo até que começou a falar. Áurea não podia passar mais vexame que agora. A menina tinha nascido com a língua solta. Ninguém a segurava de falar a verdade. Chegava uma pessoa e dizia: “Ô Áurea, tá bonito meu vestido novo”? A menina nem esperava a mãe responder. Ia logo dizendo: “A senhora ficou gorda com ele”. Que era verdade era, mas a verdade dói de vez em quando. Um dia fez até o pai perder freguês: “Ô moço, a galinha na venda da esquina tá mais barata” - Desde pequena a menina tinha convivido com a criação de galinhas do pai. Cedinho escutava o galo cantar.
A menina achava muito natural ser como era, afinal nunca tinha sido de outro jeito! Só que quando entrou na escola tomou um susto: ela começou a perceber que as pessoas enganavam umas as outras. Foi uma grande decepção para Amanari a nova descoberta. Conheceu a mentira. Ela ainda não conseguia entender direito como era que isso funcionava. Não conseguia ela mesma mentir. Não sentia na pele o que era isso.
Mas a nova descoberta não tardou a acontecer. Um dia saiu da sala e deixou seu pirulito enorme, todo colorido, que seu Roberto tinha dado a ela. Quando voltou cadê? O canto mais limpo. Ficou chateada, mas depois esqueceu do que tinha acontecido. Mais tarde, quando abriu a bolsa da colega para pegar uma borracha emprestada, tomou um susto! O pirulito estava lá, metade comido! Ainda pensou: “Desgraçada, se fosse pra comer que tivesse comido inteiro, só assim eu num tinha raiva!”. Depois desse dia Amanari percebeu que já não era tão criança, tinha agora sentido a mentira de perto.
A verdade da menina esta atrelada a um outro sentimento, o senso ético. Ela era sempre coerente. Não existia nada que fizesse que alguém pudesse dizer que ela estava contrariando aquilo que ela mesma entendia como justo. Teve até um briga com a mãe um dia por causa disso.
Era seu aniversário e a tia tinha lhe dado um tecido. Ela olhou bem pra aquilo e disse: “A senhora pode ficar com ele. Eu não quero não”. Pra a menina aquilo era muito normal. Se ela não ia usar o tecido não era melhor que ficasse com a tia que iria usá-lo? Ficariam felizes as duas. Mas a mãe e principalmente a tia, achou aquilo uma desfeita! Então dona Áurea foi lá e disse: “ Minha filha, tem certas situações que a gente precisa mentir um pouquinho”. E ela achou aquilo muito feio. Se ela tinha lhe ensinado a não mentir não mentiria nunca!
O divertimento da menina era ir ao jardim cheirar as flores. Mas não as arrancava para sentir melhor o cheiro como muitos fazem e nem deixava que ninguém fizesse isso! Achava muito injusto arrancar as pobrezinhas. Se cada um que chegasse arrancasse uma, outras pessoas iam ficar privadas de sentir o cheiro e a história que cada uma delas guardava. Era verdade. Quando Amanari começava a sentir o cheiro de uma flor, uma historinha ia crescendo na sua cabeça e ia florescendo, florescendo. E ela tinha que contar pra alguém, se não as historinhas num paravam nunca de crescer. Então, quando chegava no colégio, contava pra todos os coleguinhas.
A verdade de Amanari não estava só nas palavras, estava nas ações também. Um dia ela inventou um beijo novo. Chegou para Abraão, seu professor de matemática (que era daqueles professores que é turrão e legal, chato e bonzinho ao mesmo tempo) e não pensou duas vezes, tascou-lhe um na bochecha. Não queria saber se o professor se sentia envergonhado ou não com a situação. Ela não se sentia. Não conseguia se segurar, viu o professor e a vontade foi crescendo tanto que teve que dar o beijo. Outro dia foi com o professor Tarcísio. Ela o viu andando meio triste e chegou dizendo: “Bonita camisa professor”. Arrancou-lhe um sorriso.
Agia de acordo com o que sentia. Não escondia nada de ninguém. Uns ficavam com raiva, diziam que ela era chata porque não conseguia esconder quando não estava bem. Outros percebiam a importância da menina. Em inúmeras situações ela era a única que conseguia falar a verdade.
Hoje em dia, quando as mães fazem seus bebês botam um pouquinho de Pó de Amanari nas receitas pra as crianças ficarem mais verdadeiras.
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Celesnah

Era uma vez uma menina lourinha, de cabelos encaracolados e olhos redondos, chamada Celesnah.
Desde muito pequena a menina percebeu que era diferente de seus amiguinhos, quando ela estava muito feliz ficava toda brilhante, saíam raios por todas as partes do seu corpo. Uns brincavam que ela tinha engolido uma estrela cadente, outros que a menina era, na verdade, um vaga-lume disfarçado. E ela, nada sabia do porquê de ser assim. Ela nem mesmo acreditava que tivesse tanta luz!
O pai da menina era um homem a frente de seu tempo. Ele tinha fabricado uma maquina fantástica que fazia cópias de tudo aquilo que ele via! A menina sempre quis mexer nela, mas ele não deixava. Escondia o olhoscópio a sete chaves.
Celesnah tinha herdado a mania do pai de enxergar o mundo com olhos diferentes do comum. Se tinha uma coisa que ela gostava de fazer era olhar pelo buraco da fechadura. Achava bonita aquela forma de ver o mundo com moldura.
Um dia seu avô, que sabia do divertimento da menina, pegou uma fechadura velha que tinha e pou, deu a ela. Afinal de contas a mania já havia criado constrangimentos! Celesnah nunca tinha ficado tão entusiasmada. Agora podia olhar o mundo todo com sua fechadura móvel. E saía palas ruas e parques. Ia até pra escola olhando pelo buraquinho.
Sua mãe era linda. Tinha os cabelos grandes, encaracolados também, e um bonito sorriso. Ela tinha uma estranha profissão: fazia poções mágicas. Tinha sido uma de suas poções que tinha salvado a menina uma vez.
Celesnah estava muito triste porque seu gatinho Truffaut havia morrido. Não queria mais comer, nem falar. Então, sua mãe preparou uma poção chamada “poção do encantamento”. Ela servia pra as pessoas esquecerem as coisas tristes e voltarem a sonhar.
A menina tomou o líquido e foi tiro e queda. De noite teve os sonhos mais lindos de sua vida. Sonhou que Truffaut tinha entrado num mundo encantado e agora andava de botas, tinha um grande bigode e estava muito feliz com sua nova vida. A menina voou de mãos dadas com ele por céus muito azuis, cheinhos de estrelas. Só via os pontinhos vermelhos, verdes (casas e árvores) nos grandes campos lá embaixo. E era tão bom voar! Ela sentia um ventinho correr por seu corpo. Estava leve, leve. Então acordou recuperada e luminosa, já que estava muito feliz.
Sua avó fazia tricô, chalés lindos que a menina adorava usar. Uma de suas brincadeiras preferidas era e vestir de mulher. Pintava a boca de vermelho, colocava os sapatos de sua mãe e o chalé de sua avó. Saía desfilando e seu pai pegava o olhoscópio e reproduzia a menina daquele jeito, toda pousuda.
Mas ser diferente dos outros começou a incomodar Celesnah. Ela perguntava ao pai, à mãe, ninguém lhe dizia o motivo.
Um dia, escutou a conversa de sua mãe com uma amiga. Ouviu a mãe dizer que ela tinha nascido na lua cheia de junho e que as pessoas que nasciam nesse dia absorviam parte da luz do sol que refletiria na lua.
Assim, a luz que emanava de Celesnah era importante para dar energia às outras pessoas.
Depois desse dia a menina não se inquietou mais. Buscava sempre ficar muito feliz, pra que os outros ao seu redor também ficassem.
E essa foi a origem de Xá, menina crescida que hoje (25 de junho) completa mais uma volta em torno do sol.
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