terça-feira, março 31, 2009

Elas.


Elas sentadas no laguinho, na árvore delas, descobrindo Pessoa, correndo atrás das pessoas e recitando, chupando picolé de coco e de amendoim, gritando “não à coca-cola”, riscando na camisa “Abaixo essa sociedade capitalista e dominadora”, trocando bilhetinhos poéticos nas aulas chatas, querendo fundar uma comunidade alternativa, entrando juntas no banheiro e se fingindo de lésbicas, chorando juntas a dor e a poesia do mundo.

Elas na rede gritando músicas, loucas, dançando macumba no quintal, relembrando velhos pagodes, se vestindo de Doces Bárbaros, ligando uma pra outra dizendo uma poesia ou colocando uma música e desligando, passando uma hora ou mais no telefone, conversando até a madrugada, ela botando a rede nas costas e imitando o amigo de classe, a outra choramingando suas paixões efêmeras, ela contando as histórias nos mínimos detalhes e emocionando a outra.

Elas brigando sem fim, dizendo puta que pariu no telefone, ficando de saco cheio uma da outra, discutindo relação na frente de todo mundo. Elas cada uma em uma cabine do banheiro do planetário fazendo as pazes, cada uma em um país conversando pela internet. Elas se chamando de nerd, de xuxu, falando a linguagem do coração, dando abraço forte que só. Elas dormindo com uma roncando e a outra miando pra ela parar de roncar. Uma alta e a outra baixa, uma calma e a outra forte, uma morena escura e a outra “morena clara”, uma dos cabelos cacheados e a outra lisos, uma dos olhos pequenos, a outra grandes. Uma falando de como tudo é espiritual e a outra só escutando ressabiada, uma cantando Los Hermanos e a outra de saco cheio, uma marxista e a outra anarquista. Uma severa e a outra de coração mole. Uma Virginia Woolf, a outra Clarice Lispector, uma yoga, a outra muay thai, uma carnaval, a outra cinema.

terça-feira, dezembro 30, 2008

No jardim.


Num jardim não muito distante daqui mora Carol, lá pras bandas de Olinda. Ela não vive só, tudo o que faz compartilha com sua família, Elizete, sua mãe e Amanda, sua irmã.

Carol mora na frente de uma casa bem bonita, toda colorida, onde bate o ventinho do mar. Ela mora em frente à casa? Éee. Carol, sua mãe e sua irmã são três flores, que, faz algum tempo moram ali, ao lado de lagartos formigas e outros bichinhos do jardim.

São três girassóis, três flores que guiam suas vidas pelos raios do sol. Carol é forte que só vendo, venham tirar ela dali, do lado de sua família e de debaixo do sol pra ver o que acontece! Mas ela também é bem doce, perfumada e iluminada, com suas pétalas grandes, amarelas.

A felicidade maior que Carol teve foi quando Amanda derrubou uma sementinha no chão, e, não se sabe como, nasceu uma borboletinha linda, o nome dela é Juju. Juju adora pular de florzinha em florzinha e sacudir suas asinhas que ela aprendeu a pouco tempo a bater.

Elizete, o maior dos girassóis desse jardim também ficou muito encantada com o acontecido. Ela vai deixar Juju, mesmo não sendo um girassol, igualzinha às filhas, assim, fortes e radiantes. Muito da firmeza de Carol veio dela, de Elizete. Ela tem as raízes bem fincadas no chão e ensinou muito a suas filhas dos caminhos da vida.

Já Amanda ensinou a Carol como ser feliz dançando. Acredite se quiser, mas Amanda é sim um girassol dançante! Desses difíceis de achar, mas que quando encontrados deve-se dar muito valor.

Ela dança e leva todas as tristezas bem pra longe, a cada movimento seu, o ambiente, de escuro passa a ficar clarinho clarinho, tão branco que chega a doer nos olhos. Amanda também tem a habilidade de fazer tudo o que você conseguir imaginar com o papel, ela consegue imitar todos os animaizinhos e plantas do jardim com suas réplicas!

E Carol não fica por menos, mas tem uma outra mania, a de pintar. Já pintou quase todo o jardim. Lá tem árvores de todas as cores, verde, rosa, amarela. Carol também desenha florzinhas onde não tem. Chega até a confundir as abelhas coitadas!

Mas o que Carol gosta mesmo é de desenhar arco-íris. Uma vez viu um no céu e achou tão bonito todas aquelas cores juntas. Ela que tanto gostava de pintar descobriu naquele dia cores que nem imaginava que existiam.

Desde então é isso que Carol faz. Ela pede emprestado a cada flor, a cada bichinho do jardim, uma pétala, uma casquinha dos insetos quando eles as trocam, pra fazer suas tintas. E assim, ela sai por todos os cantos pintando arco-íris e dando a dimensão da beleza das cores para quanto mais gente, bicho, planta puder ver!

quarta-feira, dezembro 17, 2008

trechos de "A insustentável leveza do ser"

"Tereza sabe que é mais ou menos assim o instante em que nasce o amor: a mulher não resiste a voz que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz".

"Aquilo que o “eu” tem de único se esconde exatamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar aquilo que é idêntico em todos os seres humanos, aquilo que lhes é comum. O “eu” individual é aquilo que se distingue do geral, portanto aquilo que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, aquilo que precisa ser desvelado, descoberto e conquistado do outro".

"Todos nós temos a necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura o olhar de um número infinito de pessoas anônimas, em outras palavras, o olhar do público (...)
Na segunda categoria estão aqueles que não podem viver sem ser o foco de numerosos olhares familiares. São os incansáveis organizadores de coquetéis e jantares, mais felizes do que os da primeira categoria, que quando perdem seu público imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a todos, mais dia menos dia (...)
Vem em seguida a terceira categoria, aqueles que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação destas pessoas é tão perigosa quanto a daquelas da primeira categoria. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão (...)
Por fim existe a quarta categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores".

quarta-feira, setembro 10, 2008

Pó de Amanari


Quando Amanari nasceu ela era bochechudinha e risonha. Áurea, a boleira só faltou morrer de tanta felicidade. Seu primeiro filho era uma menina branquinha, de cabelinho preto preto. O pai, Roberto da granja disse logo ao saber que era uma menina: “Essa aí vai ser freira!”.

E Amanari foi crescendo, crescendo até que começou a falar. Áurea não podia passar mais vexame que agora. A menina tinha nascido com a língua solta. Ninguém a segurava de falar a verdade. Chegava uma pessoa e dizia: “Ô Áurea, tá bonito meu vestido novo”? A menina nem esperava a mãe responder. Ia logo dizendo: “A senhora ficou gorda com ele”. Que era verdade era, mas a verdade dói de vez em quando. Um dia fez até o pai perder freguês: “Ô moço, a galinha na venda da esquina tá mais barata” - Desde pequena a menina tinha convivido com a criação de galinhas do pai. Cedinho escutava o galo cantar.

A menina achava muito natural ser como era, afinal nunca tinha sido de outro jeito! Só que quando entrou na escola tomou um susto: ela começou a perceber que as pessoas enganavam umas as outras. Foi uma grande decepção para Amanari a nova descoberta. Conheceu a mentira. Ela ainda não conseguia entender direito como era que isso funcionava. Não conseguia ela mesma mentir. Não sentia na pele o que era isso.

Mas a nova descoberta não tardou a acontecer. Um dia saiu da sala e deixou seu pirulito enorme, todo colorido, que seu Roberto tinha dado a ela. Quando voltou cadê? O canto mais limpo. Ficou chateada, mas depois esqueceu do que tinha acontecido. Mais tarde, quando abriu a bolsa da colega para pegar uma borracha emprestada, tomou um susto! O pirulito estava lá, metade comido! Ainda pensou: “Desgraçada, se fosse pra comer que tivesse comido inteiro, só assim eu num tinha raiva!”. Depois desse dia Amanari percebeu que já não era tão criança, tinha agora sentido a mentira de perto.

A verdade da menina esta atrelada a um outro sentimento, o senso ético. Ela era sempre coerente. Não existia nada que fizesse que alguém pudesse dizer que ela estava contrariando aquilo que ela mesma entendia como justo. Teve até um briga com a mãe um dia por causa disso.

Era seu aniversário e a tia tinha lhe dado um tecido. Ela olhou bem pra aquilo e disse: “A senhora pode ficar com ele. Eu não quero não”. Pra a menina aquilo era muito normal. Se ela não ia usar o tecido não era melhor que ficasse com a tia que iria usá-lo? Ficariam felizes as duas. Mas a mãe e principalmente a tia, achou aquilo uma desfeita! Então dona Áurea foi lá e disse: “ Minha filha, tem certas situações que a gente precisa mentir um pouquinho”. E ela achou aquilo muito feio. Se ela tinha lhe ensinado a não mentir não mentiria nunca!

O divertimento da menina era ir ao jardim cheirar as flores. Mas não as arrancava para sentir melhor o cheiro como muitos fazem e nem deixava que ninguém fizesse isso! Achava muito injusto arrancar as pobrezinhas. Se cada um que chegasse arrancasse uma, outras pessoas iam ficar privadas de sentir o cheiro e a história que cada uma delas guardava. Era verdade. Quando Amanari começava a sentir o cheiro de uma flor, uma historinha ia crescendo na sua cabeça e ia florescendo, florescendo. E ela tinha que contar pra alguém, se não as historinhas num paravam nunca de crescer. Então, quando chegava no colégio, contava pra todos os coleguinhas.

A verdade de Amanari não estava só nas palavras, estava nas ações também. Um dia ela inventou um beijo novo. Chegou para Abraão, seu professor de matemática (que era daqueles professores que é turrão e legal, chato e bonzinho ao mesmo tempo) e não pensou duas vezes, tascou-lhe um na bochecha. Não queria saber se o professor se sentia envergonhado ou não com a situação. Ela não se sentia. Não conseguia se segurar, viu o professor e a vontade foi crescendo tanto que teve que dar o beijo. Outro dia foi com o professor Tarcísio. Ela o viu andando meio triste e chegou dizendo: “Bonita camisa professor”. Arrancou-lhe um sorriso.

Agia de acordo com o que sentia. Não escondia nada de ninguém. Uns ficavam com raiva, diziam que ela era chata porque não conseguia esconder quando não estava bem. Outros percebiam a importância da menina. Em inúmeras situações ela era a única que conseguia falar a verdade.

Hoje em dia, quando as mães fazem seus bebês botam um pouquinho de Pó de Amanari nas receitas pra as crianças ficarem mais verdadeiras.

Celesnah


Era uma vez uma menina lourinha, de cabelos encaracolados e olhos redondos, chamada Celesnah.

Desde muito pequena a menina percebeu que era diferente de seus amiguinhos, quando ela estava muito feliz ficava toda brilhante, saíam raios por todas as partes do seu corpo. Uns brincavam que ela tinha engolido uma estrela cadente, outros que a menina era, na verdade, um vaga-lume disfarçado. E ela, nada sabia do porquê de ser assim. Ela nem mesmo acreditava que tivesse tanta luz!

O pai da menina era um homem a frente de seu tempo. Ele tinha fabricado uma maquina fantástica que fazia cópias de tudo aquilo que ele via! A menina sempre quis mexer nela, mas ele não deixava. Escondia o olhoscópio a sete chaves.

Celesnah tinha herdado a mania do pai de enxergar o mundo com olhos diferentes do comum. Se tinha uma coisa que ela gostava de fazer era olhar pelo buraco da fechadura. Achava bonita aquela forma de ver o mundo com moldura.

Um dia seu avô, que sabia do divertimento da menina, pegou uma fechadura velha que tinha e pou, deu a ela. Afinal de contas a mania já havia criado constrangimentos! Celesnah nunca tinha ficado tão entusiasmada. Agora podia olhar o mundo todo com sua fechadura móvel. E saía palas ruas e parques. Ia até pra escola olhando pelo buraquinho.

Sua mãe era linda. Tinha os cabelos grandes, encaracolados também, e um bonito sorriso. Ela tinha uma estranha profissão: fazia poções mágicas. Tinha sido uma de suas poções que tinha salvado a menina uma vez.

Celesnah estava muito triste porque seu gatinho Truffaut havia morrido. Não queria mais comer, nem falar. Então, sua mãe preparou uma poção chamada “poção do encantamento”. Ela servia pra as pessoas esquecerem as coisas tristes e voltarem a sonhar.

A menina tomou o líquido e foi tiro e queda. De noite teve os sonhos mais lindos de sua vida. Sonhou que Truffaut tinha entrado num mundo encantado e agora andava de botas, tinha um grande bigode e estava muito feliz com sua nova vida. A menina voou de mãos dadas com ele por céus muito azuis, cheinhos de estrelas. Só via os pontinhos vermelhos, verdes (casas e árvores) nos grandes campos lá embaixo. E era tão bom voar! Ela sentia um ventinho correr por seu corpo. Estava leve, leve. Então acordou recuperada e luminosa, já que estava muito feliz.

Sua avó fazia tricô, chalés lindos que a menina adorava usar. Uma de suas brincadeiras preferidas era e vestir de mulher. Pintava a boca de vermelho, colocava os sapatos de sua mãe e o chalé de sua avó. Saía desfilando e seu pai pegava o olhoscópio e reproduzia a menina daquele jeito, toda pousuda.

Mas ser diferente dos outros começou a incomodar Celesnah. Ela perguntava ao pai, à mãe, ninguém lhe dizia o motivo.

Um dia, escutou a conversa de sua mãe com uma amiga. Ouviu a mãe dizer que ela tinha nascido na lua cheia de junho e que as pessoas que nasciam nesse dia absorviam parte da luz do sol que refletiria na lua.

Assim, a luz que emanava de Celesnah era importante para dar energia às outras pessoas.

Depois desse dia a menina não se inquietou mais. Buscava sempre ficar muito feliz, pra que os outros ao seu redor também ficassem.

E essa foi a origem de Xá, menina crescida que hoje (25 de junho) completa mais uma volta em torno do sol.

As travessuras da menina Cícera



Era uma vez uma menina magrinha e danada chamada Cícera. Tudo ela se metia a fazer. Tanto que o povo dizia: Essa menina é um pé de mesa. E Cícera sou, sou um pé-de-mesa!

Era a mãe dela dizer: “Eu queria fazer um docinho e num tem.. quando passar uma pessoa eu vou mandar balançar o pé de caju” Que nem precisava esperar alguém passar pra tirar o caju, Ciça não pensava duas vezes: “Tanto caju, num caiu um ainda.. Eu vou subir no pé!”

Era cada caju roxo e doce! Cícera subiu e balançou pa-pa-pa-pa-pá. E a mãe dela ouvindo o barulho: “Um vento desses Maria José – que era a irmã de Ciça – Pega uma bacia, vai apanhar caju minha filha!” E Ciça lá em cima no pé: “Ai, eu vou apanhar, vou apanhar mesmo!”.

De lá mesmo Maria José gritou: “Mãaae, num foi o vento não! É Ciça que ta no pé caju!” e a mãe lá de dentro: “Ai meu Deus! Ela vai apanhar! Eu num mandei ela subir aí pra num cair!

Tinha um bocado de caju no chão, dava uma bacia meinha! Maria José apanhou tudinho. (Ciça): “Pega a bacia de caju sua nega, que é pra mãe fazer o doce. Você me paga!”Ciça, com medo, ia simbora pro beco. E a mãe dela: “Cadê Ciça?”(irmão): “Ciça ta ali no beco sentada.” (mãe): “Apois, chame ela pra dentro, pra lanchar. Eu vou dar uma bolachinha a ela”. E Ciça aliviada. Essa tinha sido por pouco!

Ciça parecia uma macaquinha, subia em pé de caju, pé de coco, tudo ela sabia! Ela morava com os pais e irmãos em Aliança, uma cidade do interior. A mãe dela criava tudo que era bicho, vaca carneiro, pato, galinha, peru! Ela chupava manga, jaca, cana, tudo tinha!

Outro dia a mãe de Ciça: “Eu tô doida pra comer jaca” e o que é que Ciça fez? “Eu vou subir no pé de jaca. E tu bota o olho em Maria José”, falou pra o irmão, companheiro de suas travessuras e mocotó..subiu no pé de jaca ton ton ton ton..

Aí disse assim: “Essa jaca tá madura, eu num vou tirar essa não. Tem duas lá em cima olha, pia praí! E Cícera pensou “Eu vou tirar as de lá de cima, as maiores que tem, as duas bichonas!”Ela subiu no pé de jaca e a galha da jaca se quebrou! pa-pa Ciça se abraçou com a jaca assim.. e o galho –u-u-u-u bou! Ela caiu em cima da jaca! Tinha caído a jaca maior do mundo!

O irmão de Ciça correu pra pegar água pra eles tomarem, trouxe um tonel de água e Ciça em cima da jaca. Ela tomou a água e só escutou Maria José dizer: “Mãaae foi Ciça!” Nessa hora Ciça pensou “Tô perdida”.

Dona Belarmina, mãe da menina falou logo aflita: “Ela caiu de cima pra baixo. Ela morreu..” e Maria José: “Morreu não mãe, tá aqui!”. Ciça pensou : “E agora?”, ainda deitada em cima da jaca. Mas não teve dúvida, disse logo provocando a irmã: “Pega a jaca e leva pra mãe comer e venha buscar a outra viu? Ela num queria comer jaca? Tem jaca!”

Maria José, que conhecia bem o gênio de Cícera colocou a jaca enorme na cabeça e levou pra mãe. E a mãe dela: “Cadê Ciça Maria José? E a menina respondeu: “Ela ta lá no pé de jaca”. (mãe): “Ela num subiu nadinha não?” (irmã) “Sei não mainha, sei não, sei não, sei não”.

Maria José foi lá pegar a outra jaca, como Ciça tinha mandado e a mãe surpresa: “Foram duas jaca?” (Maria José) “Foi.. duas jacas mainha! Tinha uma galha de jaca fina, ela foi subir e a galha se quebrou”. Enquanto isso Ciça lá fora: “ Eu é que num entro dentro de casa!”.

Dona Belarmina abriu as jacas. Cada jaca boa! Nesse tempo era cada jaca boa! E Ciça com vontade de comer.. Resolveu esperar o pai “Ela vai ter que me dar”. Daqui a pouco lá vinha o pai com a enxada. (Ciça): “Ô pai, eu caí com uma jaca, duas jacas em cima de mim!” (pai) “Minha filha, num fale isso não! A sua vida é doce quando morrer acabou-se!”. Aí a menina se justificou: “Não pai, mainha disse que queria comer jaca aí eu subi no pé.” E o pai dela em tom de briga: “Belarmina quer comer caju e tu sobe no pé, se ela quer comer jaca tu vai subir também é? E ela te matou a pau? (Cícera): “O senhor num deixa ela dar em mim não?” (pai): “Não, deixo não”.

Entrou em casa, as jacas estavam lá, uma aberta e a outra inteira. Então, o marido falou, com seu jeito manso de sempre: “Ta comendo jaca né veia?”. Belarmina respondeu enraivecida: “Tou, tu num sabe de nada! Olhe, essa tua filha! Essa menina é o pé de mesa! Num diz e num assopra, num diz e num assopra!” E o marido, sem nenhum sinal de raiva: “Tu comesse jaca? Tudinho comeu jaca? Encheu a barriga, matou a vontade de jaca?” (mulher): Foi. (marido): “Tu vai dar na menina?” (mulher): “Eu ia dar uma lapada nela de peça de corda!” Então o marido já ficando enraivecido falou: “Num dê nela não, ela bota a fruta dentro de casa, tudinho dentro de casa e vocês comem! E continua, agora voltando a sua calma normal: “A sina dela é essa mesmo. Deus num deu a sina dela? Deixa ela subir no pé de jaca, deixa ela cair”.

Só nessa hora é que Cícera entrou em casa, ainda com medo. Aí a mãe falou contrariada: “Venha pra dentro que eu num vou dar em você não!” E Cícera desconfiada: A senhora num vai dar mesmo não? (mãe): “Não, não, vou dar não”. E o pai continuou : “Venha,entre , senta aí e coma jaca”. Ciça pegou um taco de jaca, comeu, e ao mesmo tempo que comia olhava de banda para a mãe com medo.

E a história num parou por aí não. Cícera não queria nem saber se ia apanhar se não ia, continuava subindo nas árvores pra pegar frutas. Da primeira tinha escapado, da segunda o pai estava lá pra defender. E agora, será que Ciça vai apanhar ou não?

Ouviu a mãe dizer que queria peixe de coco. Disse logo ao irmão: “Vou subir no pé de coco!” (irmão): “Suba não Ciça, tu vai apanhar!” Mas dessa vez ela tinha tido uma idéia: “Eu entro no mato e num apanho! Só chego em casa quando meu pai chegar!”.

Subiu no pé (pa-pa-pa-pa-pá) até o olho do pé de coco. Tirou os cocos e eles tudo caindo (pa-pa-pa-pa-pa-pá). Era perto da casa dela. A mãe da menina, sem perceber que mais uma vez a danada tinha subido no pé disse assim: “Oxe, o vento ta botando coco a baixo! É até bom, vou fazer peixe de coco amanhã”. E gritou: “Maria Joséeee, vá Maria José apanhar o coco!

A irmã da menina chegou e Ciça: “Se esconde, se esconde”, falou pra o irmão. “Vamos se esconder detrás do mato!” E Maria José ainda sem ver os dois: “Oxe, o coco caiu todinho!” Ciça tinha pego uma folha de coco e estava lá embaixo, mas não adiantou, a irmã olhou pra cima e viu o pé da menina: “É tu que ta no pé de coco!”. Ciça braba como sempre disse: “Se você disser a minha mãe eu pego um coco e mato tu com ele na cabeça! A irmã disse pra Ciça: “Não eu num vou dizer.. eu num vou dizer não!” Mas chegou em casa com a língua coçando e disse pra mãe: “Mainha, tem muito coco no chão, tudo maduro. Sabe quem tirou? A senhora num sabe quem ta no pé de coco! A mãe, que a essa altura já estava desconfiada: “É Ciça! Eita que menina da moléstia, essa menina”.

Na casa de Cícera todo mundo tinha que trabalhar, como dizia a mãe dela “Pra botar comida dentro de casa”. Ciça limpava mato, lavava roupa, pescava, mas o que não gostava mesmo de fazer era cortar palha de cana, dizia manhosa pro pai: “Tou cansada pai, eu tou toda cortada.. esse sol quente!” O pai sentindo dó mandava as meninas todas pra casa: “Pronto, essa semana nenhuma vai. A ordem é minha! Num vai nenhuma. Antônio mais José vão, os dois rapazinhos. As três meninas num vão não”.

Mas não era sempre que Cícera conseguia fugir do trabalho, com raiva da mãe um dia se vingou. No sábado todos iam pra feira vender potes de barro. Quando eles estavam subindo a ladeira com os potes Cícera (pei) jogou o pote no chão. O irmão dela, já sabendo da armação, mentiu pra mãe: “Ô mainha, Ciça caiu, levou um baque, quebrou o pote”. dona Belarmina, que sabia a filha que tinha disse: “É mentira dela, ela quebrou por que quis! Vamo simbora apanhar!”. E o pai de Ciça, sempre defendendo a menina: “Por que tu dá nessa menina Belarmina? Num dê nessa menina não Belarmina!”. E a mãe com raiva: “Essa menina tem o couro no osso, ela é ruim demais!”

Uma vez Cícera apanhou por que estava brigando com a irmã e ela foi reclamar pra mãe. A menina, que nunca tinha se dado bem com Maria José armou mais uma das suas. À noite, ela pegou o candeeiro, colocou embaixo da rede. A irmã estava rón rón rón. Cícera abriu as pernas e to-lo-lo-lo-lo-lo-ló na boca dela. Fez xixi na boca da irmã! Então, Ciça se emborcou dentro da rede, pra se esconder dos pais. A mãe dela fez assim dentro de rede vuuufo: “Ela ta acordada” e o pai respondeu: “O quê? Essa menina dormindo, ta roncando!” Cícera feliz, depois contou pro irmão: “Eu mijei na boca dela, mijei na boca dela! Ela estava tão contente, tão contente!

Ciça sempre foi corajosa, tão corajosa, tão corajosa que acredite quem quiser, mas um dia ela lutou até com uma cobra! Ela tava cortando as palhas de cana quando achou uma, era dessas cobras ruim, essas cobras brabas. Ciça pegou a enxada e pan-pan-pan-pan, começou a bater na cobra e a cobra com medo de Ciça. Ela dava cada bote! (susurrando) Ela fazia assim com o rabo pra enlaçar a menina. Ciça meteu a enxada na cabeça da cobra, daqui a pouco ela nem barriga tinha mais. Ela pegou a enxada e deu o golpe final, a cobra morreu.

Então, Ciça pegou um cipó e deu um laço que passava pela cabeça, pelo gogó da cobra, e depois pela cabeça de novo. Foi quando ela escutou o irmão lhe chamar: Ciçaaa, Ciçaaa. (Ciça): Oi, tou na sombra! Peraí, vem cá, me acode aqui!

Como quem mata a cobra tem que mostrar o pau, Ciça pegou a cobra amarrada e colocou numa vara. Ela era dessa grossura! Ela podia até ter matado, engolido Ciça de tão grande!

Então, Ciça levou a cobra pra casa e mostrou a todo mundo, tudinho ficou com a boca aberta: “Que menina! Mas dona Belarmina, a senhora num tem uma menina não viu? A menina tem fé mesmo, a menina tem coração pra engolir um viu?” Foi quando Dona Belarmina se deu conta do perigo da situação: “Quem matou essa cobra?” (irmão): “Quem foi mainha, num foi Ciça?” (mãe): “Virgi Nossa Senhora da Conceição, que menina! Deus mandou essa menina pra terra pra atentar, pra lutar”. E Ciça respondeu: “Pra lutar mesmo! E a senhora num vai dar em mim não viu? A cobra ia me engolir, eu engoli a cobra!”

A cidade toda tinha ido lá ver o feito de Ciça. E cada um que passava falava assobrado: “Mas dona Belarmina, a senhora num tem uma menina não viu? Que menina! Ela tem muito gênio viu!? Matar uma cobra dessa dentro da cana!? E Dona Belarmina perguntou ao marido: “Homi, o que é que vai fazer com essa cobra?” (marido): “Enterrar ela e matar a espinha”. Então o pai de Ciça enterrou a cobra. Depois desse dia Ciça disse que nunca mais ia pra palha de cana. A mãe deixou, mas disse que no lugar ela fosse apanhar café. Ciça preferiu. Depois desse dia ela pegava duas cabaças, colocava uma lá outra cá e ia apanhar café.

Se vocês pensam que as traquinagem de Cícera acabaram vocês tão muito enganados! Um dia ela tava com vontade de comer peru só que a mãe disse que ia matar a galinha. Mas a vontade era tanta que a menina teve uma idéia: pegou um pedaço de pau e pou pou no peru e o peru troooon tu-lu-lu-lu-lu e ela pa-pa-pa-pa-pa-pa-pa.

O irmão dela, como todas as vezes estava dentro do plano, aproveitou que o galo era brabo e chegou pra mãe: “Eita mãe, o galo deu uma pisa no peru. O peru: Tun aí o galo: taaa. Matou o peru”. E a mãe desconfiada: “Cadê Ciça?” (irmão): “Ciça num ta aqui não mainha”. Ciça que num era besta tava era escondida.

Dessa vez Dona Belarmina tinha acreditado mesmo na história, resolveu dar um fim no galo e criar outro. Ciça só faltava estourar de felicidade, disse pro irmão: “A gente vai comer o galo também!” A mãe voltou a perguntar pela menina: “Ciça ta aqui?” (irmão): “Não, ela foi lá embaixo”. (mãe): “Ciiiça”. (Ciça): “Oii”. (mãe): “Olha, vem pra casa”. Dona Belarmina, então, botou água no fogo, sangrou o peru. Era uma lapa de peru! E Ciça comeu o peru. A mãe num queria matar ele não pra vender. Mas bem que Ciça tinha dito: “Ela vai comer o peru!”

Até aí está tudo bem com as histórias de Cícera, ela contava uma mentirinha e conseguia o que queria, podia até ser que apanhasse um pouquinho depois, mas ela continuava fazendo as travessuras mesmo assim. Mas um dia, como acontece com todo mundo que conta muita história, quando Cícera foi falar a verdade, ninguém acreditou nela, o feitiço tinha se virado contra o feiticeiro.

Ela tinha ido no mato pra pegar lenha e uma espinha de cobra tinha entrado no pé dela, ela mostrou pra mãe, a mãe olhou assim, e não achou a espinha e falou: “É manha dela!” E ordenou: “Tu, Maria José, Maria das Dores vão no rio pegar peixe pra o almoço de amanhã!” Ciça, com o pé doendo muito pensou: “Me ajuda papai do céu! Meu pé ta doendo!”

Lá no rio Maria José num tinha tido a menor pena de Cícera, dizia secamente: “Bota o gererê aqui pra pegar o peixe!” E Ciça pensava: “Eita Jesus, se eu num pegar o peixe eu vou apanhar! Me ajuda Jesus..a pegar um peixinho, um peixinho Jesus!” Quando Maria José buliu na beira do rio Ciça pegou um peixe desse tamanho! Gritou logo: “Me acode Maria José, me acode, um peixão, um peixão!”. Maria José correu pegou o peixe, saiu de dentro da água pro peixe num cair dentro da água, matou o peixe, e botou numa cesta.

Ciça começou a sentir o pé: “Aí Maria José, meu pé, meu pé!” (Maria José): “Quer ir pra casa?” (Ciça): “Eu vou pra casa, eu vou pra casa”. Já estava dando febre na pobre da menina. Chegaram em casa já era noite, Ciça num podia nem botar o pé no chão de tanta dor. Dona Belarmina botou o pé dela na água, veio uma facada no coração dela e ela gritou: “Ai que dor! Jesus me ajuda! Eu vou morrer! Eu vou morrer meu Jesus!”. E Dona Belarmina apavorada: “Amanhã de manhã vou levar essa menina pro hospital”. O pé de Ciça já estava ficando roxo, todo roxo, a espinha de cobra tava lá dentro!

No outro dia, bem cedinho, os pais de Ciça levaram ela no médico, o doutor de seis horas da manhã chegou, assustado disse: “Virgem minha Nossa Senhora, o pé da menina ta todo roxo! Vou dar uma injeção nela.” Ele deu a injeção e a dor não parou. Aí ele deu um talho e saiu um bocado de pus. Ele coou o pus, com uma peneirinha, pra saber o que é que tinha dentro. Aí ele tirou a espinha, ela era da cor de coco, bem branquinha.

Depois, o pai de Ciça mais a mãe chegaram: “E aí doutor?” (médico): “Espinha de cobra!” No outro dia de manhã Cícera já estava melhor, acordou cedinho, tirou leite de vaca, tomou. (mãe): “Ta melhor ta minha filha?” (Cícera): “Tô mãe”. Se Cícera não tivesse tirado o espinho ele tinha subido, subido pelo corpo todo e se chegasse no coração a menina morria!

Mas por que será que Cícera era tão pimentinha? Deveria ter algum motivo! Sabe por quê? Por que ela nasceu no dia da fogueira!!!

A fogueira tava feita, a mesa tava a coisa mais linda do mundo, Dona Belarmina tinha feito de tudo: pamonha, canjica, tapioca, pé-de-moleque, tinha até matado um peru pra comer no outro dia no almoço. Nesse tempo o fogão era à lenha, onde se faziam os bolos, galinha. Dona Belarmina fazia cada bolo de manteiga! Todo ano era assim, ela enchia a mesa, a mesa ficava cheinha, cheinha!

Mas esse ano era diferente, esse ano a mulher estava com um barrigão. (Belarmina): “Essa criança ta preguiçando dentro da minha barriga, ela num quer nascer não!” Foi só Belarmina dizer isso e começou a sentir uma dor: “Aí que dor na minha barriga, uma dor no meu pé da barriga! Eu vou descansar é? Essa nega vai nascer, ou é um nega ou um nego!” No fundo o marido dela queria um menino, mas disse pra mulher: “Do jeito que vier ta bom num ta veia?” (mulher): “Ta bom.”

Então deu um dorzinha e Donda Belarmina resolveu ir tomar banho. Aí ela disse assim: “Olha, bota a comida todinha em cima da mesa e o peru tu corta, bota pra ferver pra torrar amanhã”. (marido): “Ta certo”. Ela ainda disse: “Eu num vou nem tomar café, num to com vontade de comer nada. Nem pamonha nem nada”. E falou pro marido: “Olha, tu vai chamar a parteira? Eu vou descansar meu velho”. (marido): “Tu vai descansar é?”

Eles moravam aqui e a parteira na banda de lá. O pai de Ciça deu uma carreira, mas quando chegou ela já tava na beira mesa Qué- qué-qué. Todo feliz, o velho acendeu a fogueira, soltou bem muitos fogos. E o povo falou: “Eita Belarmina descansou, ela descansou Meu Deus, no dia da fogueira!”

Cícera tinha nascido no dia do fogo! Foi tanta gente pra comer e beber: “Foi homem?” E o pai de Ciça: “Foi mulher, o nome dela é Cícera”. Tinha sido uma promessa. Todo menino dele morria, então ele fez uma promessa se fosse homem era Cícero, se fosse mulher era Cícera. (pai): “A minha Cícera nasceu, foi mulher”.

A parteira limpou a criança, cortou o imbigo, deu banho, deixou na beira da cama. Botou outra roupa, deixou ela toda bonitinha em cima da cama. Então a irmã de Ciça disse pra mãe: Quer tomar café? (mãe): “Quero uma pamonha somente e uma xícara de café”. Aí ela comeu a pamonha, tomou a xícara de café. E a menininha lá, magrinha, xoxinha. Foi tanta gente ver ela! E todo mundo que chegava dizia: “Eita, a menina nasceu no dia da fogueira! A menina vai ficar uma pimenta!” Foi dito e feito!

Fim.

Mamãe Coragem

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo
eu fui embora

E lá se ia a menina magra, de cabelos curtos lisos e pretos, andando pela terra seca, indo buscar seu futuro na cidade. Ela, que nascera ali, onde vivera momentos tristes, outros nem tanto, agora ia pra nunca mais voltar.
Hoje se lembra do que viveu, marcas que permanecem na memória e nos traços de sua face.
Recorda um tanto risonha a história de seu primeiro namorado. Tinha sido um vendedor de picolé! Certo dia, quando ouviu uma de suas irmãs mais velhas dizer que tinha arranjado um namorado não quis ficar para trás, foi lá e namorou o vendedor. Tinha sido namoro besta, de pegar na mão e conversar. No outro do dia não quis nem ver o menino.
E foi sempre assim com essa mesma irmã. Ela lembra de feliz que ficou no dia em que seu pai lhe comprou uma sombrinha de um mascate. Ela tinha uma bonequinha na ponta! A da sua irmã não, era listrada apenas. O pai disse a sua irmã: Você já é uma moça. A da boneca é pra Hercília. Nesse dia o riso não conseguia sair do rosto da menina.
Esse é um dos poucos momentos que ela lembra ao lado do pai. Ele era um homem sério, austero. Não se dava muito a brincadeiras. Andava sempre de camisa e calça de linho. Impecável. Mantinha uma certa distancia dos filhos. Nem chegava a almoçar com eles. Escutava sempre o rádio. Certa vez, Hercília o surpreendeu chorando ao escutar uma notícia. Ele apenas franziu a testa e a lagrima escorreu.
Outro dia que ela não esquece foi uma das poucas vezes que o pai lhe falou: - Você sabe que tem o nome igual ao seu? A mulher do presidente. Era a esposa de Médici.
O velho Pereira era político. Influente na cidade. Tinha um motor de energia que iluminava as casas. Tinha sido ele que havia construído o único poço de Jabitacá. Quando alguém, por motivo político, ou não - não se sabe - fechou o poço, o velho quebrantou. Teve um infarto.
Em sua casa funcionava uma farmácia, uma mercearia e uma padaria. Hercília lembra daquelas vitrinas com coisas bonitas que dava gosto. Enxovais de linhos bordados, brincos, perfumes franceses. Na padaria havia quatro prateleiras. Uma do pão francês, outra do doce, outra da bolacha salgada outra da doce. A menina lembra a fartura que tinha na casa, sempre cheia de gente e de comida. Ainda hoje sente o cheiro das bolachas assando no forno. Mas banho que é bom, só tinha uma vez por semana, que era Sertão.
Pereira começou a trabalhar com 12 anos, quando seu pai morreu. Começou como agricultor, depois foi pedreiro, e acabou assim; dono do seu próprio comércio. Sua esposa, Gisa, era professora. Ensinava ali mesmo na casa, inclusive aos próprios filhos.
Hercília tinha 14 anos quando o pai morreu. Depois disso, tudo ali, na cidadezinha de Jabitacá, Sertão do Pajeú, se acabou. Acabou-se a mercearia, a farmácia, a padaria. Depois da morte do marido, Gisa ainda tentou manter as coisas, fez sociedade com o genro. Mas não teve jeito. O tempo passou e o dinheiro que a mãe ganhava ensinando não dava mais pra seu sustento e o da filha. Foi quando ela, já moça, foi embora.

Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo...
Mamãe, mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Veja as contas do mercado, pague as prestações
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos
Seja feliz, seja feliz